A Força de um Desejo
A peculiar imagem de um pequeno humanoide envelhecido e deformado arrancava ínfimas risadas entre as pessoas que estavam nas escuras salas de cinema de todo o mundo. Quando via o seu objeto de desejo, um anel colorido, seus olhos se arregalavam e suas mãos ficavam trêmulas. “Meu precioso!” balbuciava, vidrado.
O gollen, esta personagem que arrancou reações de desprezo, ironia e gozo dos espectadores da trilogia cinematográfica “O Senhor dos Anéis” não é muito diferente da maioria de nós, viventes da terra do consumo.
Pode até ser exagero tal comparação. Pode ser que não arregalemos os olhos ou tenhamos nossos corpos trêmulos. Mas o anel está no nosso imaginário, em forma de outras coisas, o mais simplório dos bens de consumo. O desejo está lá. Plantado, firme e inconveniente como uma erva daninha. E, assim como esta, não adianta arrancá-lo. Certamente este nascerá novamente.
Assim como o anel
do filme, o poder do produto não está neste, mas sim no imaginário do consumidor. O êxtase da ação não está no elemento e sim no ritual de possuí-lo. Não é muito diferente do modo como o anel era posto como objeto de desejo no filme e a propaganda dos produtos nos dias atuais.É necessário que seja visualmente atrativo, seja por uma embalagem, marca ou no caso do anel fantasioso, brilhante e dourado. Ah! O produto deve ser razão de cobiça alheia. Que nem todos podem ter, que seja difícil a conquista – ou a compra. Uma mescla de fatores que nos guia a criar uma necessidade que antes não existia. “Como pude viver sem um celular com GPS, câmera digital de 3.1 pixels e MP3 player acoplado?” É uma necessidade firme e efetiva. “Precioso! Meu celular precioso!”
Comparar-se com um monstrengo do filme pode até soar exagerado ou infame, mas existe sim um fundo de realidade cruel, que marca. O fato é que se muda o humanoide, se muda o anel, se muda a realidade ou a história. Mas a situação é a mesma.