terça-feira, 6 de julho de 2010

Produções do "Laboratório de Textos Dissertativos"

A Torre da Ilusão

Não seria a primeira vez que o mundo vislumbraria o deslumbre de jovenzinhas por criaturas criadas no imaginário de outrém. Estranhamente, de outra mulher, que acertaria em cheio ao encontrar o que atraíria todas essas jovens. Deixando de lado qualquer comparação entre o talento de escrita de tais autores e autoras, o que traria uma discussão que soaria numa linha comparatória deprimente comparando com a nossa geração, o fato é que todos tem um potencial em comum: o cativar de jovens corações.
Mais de quatrocentos anos atrás teríamos um modelo de personagem que arrancava suspiros de suas leitoras sonhadoras. Shakespeare acertaria no alvo ao criar o romance “Romeu e Julieta”, particularmente a personagem Romeu. Este, um rapaz que se apaixona por uma garota de uma família inimiga da sua, passa toda a obra lutando por tal amor. Lutou por seu amor até a morte e no fim foi esta quem abraçou os amantes, com o fim da vida de ambos. Não diferente de tal modelo, na Inglaterra do século XIX surgiriam as famosas irmãs Brontë. Duas delas escreveram obras que são lidas e sucesso até os dias atuais: O Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre. No primeiro, as indas e vindas de um casal que se amava acima de tudo, mas que as convenções e os desejos da “mocinha” não facilitaram a sua união. Heathcliff, o “galã” da história, luta para subir na vida de modo a poder sacear os anseios de sua amada Cathy, o que no fim se revela inútil. Esta morre.
Já em Jane Eyre, um romance homônimo, a protagonista se vê envolta por uma avassaladora paixão por seu patrão, um problemático dono de propriedades, com modos taciturnos e um passado misterioso. Não muito distante de tal perfil, pode-se encontrar o mais famoso de todos os heróis romanticos, o Sr. Darcy. Na famosa obra de Jane Austen conhecemos o romance da impetuosa Elizabeth Bennet e o arrogante Fitzwillian Darcy, que acaba por lutar contra tudo e todos, inclusive consigo mesmo, para ficar com a jovem que amava com todo seu coração.
Dando um salto de anos, reconhecemos a última série que abalou a cabeça das jovenzinhas da geração atual. Na série “Crepúsculo” um certo vampiro topetudo que brilha ao sol e se auto-denomina “vegetariano”, é o motivo de suspiros de garotas de todo o mundo. Este luta contra a própria natureza e inimigos para, no final de 4 livros, ficar com a sua amada.
Em quinhentos anos de literatura, com mudanças de comportamento e até mesmo do papel da mulher na sociedade, a fórmula de sucesso ainda é a mesma, podendo ser moldada para outras mídias, como a televisão, cinema e rádio. Um homem misterioso e arredio que luta incansávelmente para ficar com a sua amada, como se esta fosse a razão de seu viver. Além de tais semelhanças, existe uma ainda maior. Tal homem não existe, é uma ilusão. Seja ele pertencente a uma família inimiga ou brilhando ao sol e sendo portador de uma enorme fortuna, não existe. Uma ilusão que persegue os corações femininos entre séculos e séculos, trancafiando as mulheres num poço de frustrações. Acabam se tornando agentes passívos da sua própria história, sem autonomia, fazendo planos e esperando que sejam ouvidas por alguma fada madrinha. E o amor impossível, presente em todas as histórias, nada mais é do que uma representação da realidade triste e cinzenta que se encontra quando comparam-se com as heroínas e seus destinos “felizes”.
Mulheres são criadas ouvindo histórias de dragões, bruxas malvadas, príncipes encantados e mocinhas indefezas. Não importa quantos sutiens sejam queimados em praças públicas, quantas mulheres que dão o seu sangue para uma sociedade menos machista. Enquanto tiverem seu imaginário criado desde os primeiros anos com ilusões do tipo, continuarão presas numa torre de um castelo feito de sonhos. Tal imaginário é sim um mundo em que se vive para o outro, que a solução está no poder de outra pessoa, não de sí mesmo. E não importa quão grande seja a sua trança de cabelos, nenhum principe surgirá para salvá-la da prisão em que sí mesma se trancafiou. E a vida acabará sendo a sua madrasta má.