Não sabia quanto tempo estava alí, estava zonza e sentindo muito frio. Um gosto metálico do sangue tomava seu paladar e, quando movia suas íris, parecia que o mundo estava acabando. Talvez estivesse, pensou consigo mesma, talvez ela tivesse ido parar no inferno. Mas... Será que seus pecados eram assim, tão graves?
Segurou-se na parede, sentindo em seu tato uma superfície úmida de pedra. Ouvia, distante, risadas rudes de homens que diziam coisas que deixariam até um velho marujo enrubecido. Tossiu, não conseguia deixar de controlar sua personalidade irônica e piadista nem naquele momento. Era mesmo uma louca, pensou consigo mesma. Bem, ao menos aqueles pensamentos a faziam sentir-se um pouco otimista naquele momento. Engoliu seco, estava muito mal, certamente haviam feito algo com ela. Fechou os olhos enquanto tentava recuperar seu controle, quando conseguiu entender um pouco da conversa.
- Prostituição? Mas ela é...
- Dane-se. Vai me valer muito dinheiro. É uma garota bonita, deve admitir. Servirá como prostituta ou num caso infortuno, escrava.
- Escrava?! Por diabos, Gerard! Ela é sua irmã! E, além do mais, ela é...
- Meia irmã, meu caro. Meia irmã. - A risada desagradável de seu meio-irmão soou, fazendo-a se sentir mais temerosa do seu futuro quanto antes. Sempre temera Gerard, o filho do primeiro casamento de seu pai. A diferença de idade deles era grande, o que não impediu a proximidade indesejada que sentia. Fechou os olhos, inevitávelmente pode deslumbrar o passado.
- Nove anos atrás...-
Madelyn dormia tranqüilamente, com o livro esquecido por sobre seu corpo e sendo bem guardada pelas sombras da árvore. Seu corpo juvenil estava envolto por um vestido róseo, que parecia desejar esconder que estava se tornando uma mulher. Sorria enquanto dormia, aparentemente estava tendo um belo sonho. A propriedade de seu pai, um homem que progredia financeiramente, parecia o cenário perfeito para o descanso de uma jovem de aparência tão agradável. Não que fosse bela, ainda possuía muito do modo desajeitado das jovens púberes, o que jamais incomodou Madelyn. Ela não queria crescer. Queria ser criança para sempre.
Suspirou, se espreguiçando. Engoliu seco e então abriu os olhos, deslumbrando-se com o céu alaranjado, estava anoitecendo. Anoitecendo! Quanto tempo dormira?! De supetão, se sentou e então tomou um susto com um par de pernas másculas próximas de sí e rapidamente ergueu seus olhos, reconhecendo a imagem de seu meio-irmão, Gerard. A expressão dele era estranha para Madelyn, a fitava com uma seriedade incômoda, os olhos vidrados em seu corpo. Engoliu seco e então forçou um sorriso, se postando em pé rapidamente.
- Gerard! Que surpresa encontrá-lo aqui! Eu... - Enrubeceu, não sabia como lidar com seu irmão mais velho. A diferença de idade entre ambos era grande. Madelyn tinha 15 anos e seu irmão 27. Gerard era um homem alto e magro, de cabelos loiros e expressão sempre cansada e marcada. Madelyn tentava, desesperadamente, gostar de seu irmão e se aproximar dele.
- Estava a observando dormir, querida irmã. Realmente, está crescendo... Se tornando uma bela mulher. - Sorriu, um sorriso estranho, que em sua mente ainda infantil Madelyn pode comparar com um sorriso de uma serpente para Eva, cheia de intenções ruins.
- Não, o senhor está enganado. Eu sou uma menina ainda. - Cruzou os braços por sobre o peito, tentando esconder os seios que começavam à crescer. Os olhos do seu irmão fixaram alí e então Madelyn tomou o livro em mãos e saiu em disparada, com a face rubra.
- Devo ir, estão me esperando! - Quando saiu da linha de visão de Gerard, correu o máximo que pode até chegar em seu quarto. Encostou-se na porta enquanto acalmava sua respiração e tentava esquecer o que se passara alí. Tinha de ser amiga de seu irmão, a saúde de seu pai era frágil e sua mãe havia falecido no inverno passado. Por isso Gerard retornara. Sabia que seu pai estava doente e os negócios iam muito bem. O velho Eldred Therton fizera às pazes com seu filho e, naquele momento, o instruía para cuidar de sua filha.
Madelyn não gostava daqueles pensamentos, mas sabia que era o que iria acontecer. Não tardaria. Embora fosse uma jovem tão envolta com as ilusões da infancia, tinha uma parte de sí séria como uma anciã. O fato é que sabia que jamais seria amiga de seu irmão. Jamais. Mas deveria ao menos fingir para seu pai, uma grande emoção poderia matá-lo.
Desde que ele retornara do exterior, da França, para retomar seu relacionamento com seu pai, ele a fitava daquela maneira. Três meses. Três longos meses para Madelyn. Cada vez que sentia os olhos de seu irmão sobre sí, sentia-se suja. Não, não queria pensar mal dele. Não poderia... Respirou fundo e desceu do seu quarto, estava sendo esperada para o jantar. Desceu as escadarias iluminadas, deparando-se com a imagem de seu pai. Ele estava tocando uma bela canção no piano forte, a melhor compra que fizera desde que a sorte lhe sorrira nos negócios. Sempre foi o desejo de seu pai, desde menino, ter um piano.
E quando pudera comprar, comprou o melhor que poderia-se comprar. Madelyn se aproximou do pai e se postou ao seu lado, postando a mão por sobre a superfície lisa e amadeirada, enquanto admirava a agilidade dos dedos de seu pai. Quando o mesmo terminou, a jovem bateu palmas e se aproximou do pai, pálido pelo esforço.
- Minha filha, queria tanto que aprendesse á tocar...
- E a cantar, bordar, se portar como uma lady, falar três línguas...- Ironizou Madelyn, que riu alto. Eram novos ricos e talvez por isso, jamais recebeu uma educação como as das jovens da alta sociedade. Sabia apenas pintar e desenhar muito bem, um talento natural. Foi apenas à três anos atrás que trocara as vestimentas pobres por belos vestidos rendados, requintados. Sua pele calejada se tornara macia, estava envolta de criados, antes era uma deles.
- Seria bom, para arranjar um bom casamento. Quero que se case com um príncipe, minha querida, digno de alguém tão bom como você. - E abraçou a filha, que se aninhou em seus braços e suspirou, controlando a emoção.
- Com a beleza que tem, Madelyn não tera problemas. Moças prendadas existem aos montes nas altas rodas, meu pai. Mas o encanto pessoal, estas nenhuma delas possuem... - Falou Gerard, que se aproximava sorrateiramente como uma serpente. Sim, Gerard era tal qual uma serpente e Madelyn não poderia compará-lo com outro ser ou tirar essa imagem ruim que possuía dele de dentro de sua mente.
- Pai, estou morrendo de fome. Vamos? - Rapidamente mudou de assunto, evitando fitar Gerard. Este sorriu, um sorriso cheio de intenções nada boas e levou o cálice até os lábios, tomando o vinho em apenas um gole. O jantar foi como sempre, conversas cheias de tentativas de intimidade familiar e Gerard tentando uma aproximação estranha da própria irmã.
- Madelyn, permitiria que eu lhe mostrasse algo após o jantar? É um quebra-cabeças que lhe trouxe de presente, aposto que irá gostar.
- E-eu...Bem, eu...- Desviou os olhos do seu irmão, fitando o pai que por sua vez a obserava de maneira esperançosa, feliz com a atitude do filho. Não poderia decepcioná-lo. - Sim. Tudo bem, adoraria.
- Então deixarei os jovens em paz, estou cansado...- Levantou-se Eldred, que com a ajuda do mordomo seguiu na direção do quarto. - Boa noite, meus filhos. - Disse enquanto partia e então voltou a cabeça para trás, enviando um olhar cheio de amor para a filha. Parecia reconhecer naquele momento, o esforço da sua caçula.
Madelyn e Gerard foram para a biblioteca, num caminho que a encheu de pânico, e quando ouviu a porta ser fechada atrás de sí sentiu seu coração bater mais rápido. De fato, por sobre a escrivaninha havia um quebra-cabeças e então Gerard se postou atrás do mesmo, sorrindo para a irmã. Madelyn se aproximou lentamente, fixando seu olhar nas peças e se sentindo deleitada com o eminente divertimento. Fitou o irmão e sorriu, com aquela íntima e teimosa esperança de que estivesse errada em seu julgamento, que seu irmão queria realmente seu bem.
Sentou-se na frente das peças e começou a trabalhar, esquecendo-se de Gerard. O irmão, por sua vez, tornou a encher seu cálice e beber, enquanto fitava a irmã. Estava sentado numa poltrona, com um livro no colo, certamente para disfarçar quando esta o fitava deliberadamente. Aqueles três meses haviam sido uma tortura para Gerard, que representava diáriamente para um homem que odiava. Sim, odiava Eldred. Odiava seu pai. O homem respirou fundo, fitando o perfil da irmã.
Retornara por saber da grande fortuna que seu pai estava acumulando, o que lhe fora uma grande alegria. Estava em um bar no cais, envolto de bêbados tão sujos quanto ele, quando ouvira falar das vitórias de seu genitor. Depois disso foi fácil. Criou uma história fantasiosa, comprou uma bela vestimenta e se apresentou cheio de "boas intenções" para o velho. E foi alí que começou aquela tortura. Representava diáriamente e sabia que Eldred não era burro, pelo contrário. Naqueles três meses se portara como um enfadonho lorde, longe de bebedeiras, jogos e libertinagem. Mas nem tudo fora ruim...
Madelyn. Esta sim fora uma boa surpresa. Quando partira era uma criança chorona, mas encontrara uma jovem que o atraía como nenhuma jamais o fez. Seus olhos verdes, tão cheios de inocência, o tomavam de maneira arrebatadora. Seus cabelos rubros e rebeldes, como os de ninfas mitológias, incendiavam seu corpo. Mas era o corpo da jovem, que se desenvolvia à cada dia, que o tomava de desejo. Se controlava todos os dias, mas sabia que assim que o velho morresse, poderia tê-la para sí.
- Estou cansada... - Murmurou a irmã, o acordando de seus devaneios, bocejando. Gerard, envolto pelos efeitos do álcool, se aproximou da mesma e tomou seu pulso delicado entre as mãos. Madelyn arregalou de leve seus olhos, engolindo seco.
- Fique comigo, minha irmã. Estou me sentindo triste hoje. - Fixava seus olhos no pulso pálido, deleitando-se com aquele pedaço de pele clara. A menina sentiu um tremor tomando seu corpo e então o fitou nos olhos.
- Desculpe, eu... - Ele a puxou para mais perto, fixando seus olhos nos da irmã e murmurando num tom baixo, com a voz rouca de desejo.
- Por favor. Eu suplico. - A soltou, sentando-se na poltrona novamente e forçando um sorriso triste. Madelyn piscou algumas vezes, confusa, e então se sentou no sofá, desviando os olhos da imagem do irmão. Não sabia como agir, estava nervosa com aquela situação. Queria fugir, queria que...
- Eu sou um homem de boas intenções, sabia? Ainda mais com aqueles que são bons comigo e cooperam. - A surpreendeu, sentando-se do seu lado e fitando seu pescoço. A jovem inclinou-se para trás, o fitando com uma expressão de medo. Quando deu por sí, sentiu o peso do corpo másculo por sobre sí e sua boca sendo tampada pela mão do irmão. Sentiu um forte cheio de álcool e tentou soltar-se desesperadamente.
- Vai cooperar, não é? Eu a quero tanto, minha irmã. Eu... - Madelyn se contorcia e naquele momento lágrimas de desespero caíram de seus olhos. O irmão ria consigo e então a porta se abriu, surpreendendo ambos. Eldred surgiu, em seus trajes de dormir, aparentemente insone. Flagrou os filhos daquela maneira e então tornou-se pálido, enconstando-se na parede e parecendo faltar-lhe ar. Gerard saltou rapidamente, se aproximando do velho e o observando com atenção. Madelyn começou à gritar, enquanto via naquele momento, seu pai morrer.
Gerard ergueu-se e foi procurar ajuda, ou fingir. A jovem se aproximou do pai, que a fitava de maneira vidrada, sem foco de atenção. Ela tomou a mão do homem e a beijou, entre lágrimas.
- Pai, eu não fiz isso... Não me deixe, eu o amo! Eu preciso de tí.
- Eu sei, filha. - Suas palavras eram pausadas e ditas com dificuldade, cheias de sofrimento. - Meu choque foi com seu irmão e com a minha tolice. O que será de tí...?
- Calma-te, não irás me deixar agora! - Beijou a mão de seu pai novamente, forçando um sorriso para tranqüilizá-lo, por mais que quisesse mesmo era tranqüilizar-se. - Irá viver, irá cuidar de mim.
- Que Deus a ajude, minha filha. Dependerá apenas de tua sorte e de tua conduta e valentia. Jamais deixe-o tocar, jamais... Mereces um príncipe, eu...- Engasgou e Madelyn o abraçou, chorando copiosamente.
- Eu a amo, filha. E a vida será boa para tí, Ele deve isso para mim. A vida deve isso para mim. - Sorriu, acariciando sua cabeça e então Madelyn pode ouvir os batimentos pararem aos poucos. Em questão de segundos, Eldred Therton havia partido daquele mundo.
Os anos que se passaram foram um pesadelo para Madelyn. Gerard, assim que Eldred fora enterrado, começou a gastar o dinheiro que possuíam. A casa virou um antro de perdição, com festas e jogatinas, regadas a libertinagem e bebedeiras. Madelyn seguira o que seu pai pediu, escondendo-se de seu irmão e de toda aquela gente, tornando-se uma sombra que movia-se sorrateiramente pelo casarão. Os criados, aos poucos, partiram e sobraram apenas alguns pobres viciados, que cuidavam da casa de maneira displicente. Com o passar dos anos, Madelyn se tornou uma mulher forte. Fazia questão de ter saúde, para poder combater seu irmão. Se tornara uma sobrevivente e felizmente, seu corpo cooperou com aquela situação. Gerard era poucos centímentos mais alto que ela, mas perdia em força e agilidade.
Durante anos fugiu do irmão, fugiu de seus ataques. Quando completara 21 anos de idade, começara a combatê-lo. Pode um dia deleitar-se com uma bela surra, fazendo-o se arrepender do modo que a tratara durante todos aqueles anos. Perdera a feminilidade e a fragilidade, era uma mulher que já não possuía o romantismo dentro de sí. O príncipe que seu pai desejara para ela havia morrido e existia apenas nos livros que ela, relutava em admitir, lia constantemente. Através deles fugia de sua triste realidade e se envolvia numa felicidade utópica. Incorporava rainhas e princesas, jovens com finais felizes. Talvez, dizia aquela esperança sempre vivente em seu coração, pudesse ter um final feliz no fim das contas.
O que não podia contar, era com o revide de seu irmão. Depois de três anos, o dinheiro havia sido completamente esgotado e ele envolto em dívidas. Ela, então, descobriu que o irmão estava envolto com negócios escusos. Mas, jamais imaginaria que ele a envolveria em situação tão baixa.
- Senhorita, está tão cansada. Preparei um chá calmante, para que possa dormir. - A nova criada da casa, Lucy, adentrou nos aposentos de Madelyn e a surpreendeu com a gentileza. Realmente, a barulheira de Gerard e de seus convidados naquela noite estava infernal. Ficou grata com a idéia de Lucy e sorriu para a mesma, talvez pudessem ser amigas no fim das contas. Lucy era uma das tantas jovens que vinham para lá, iludidas com propostas de fortunas ou bons casamentos. Provávelmente se tornaria uma prostituta, ou algo até pior. Respirou fundo e lamentou em silêncio o destino da jovem, que partira tão sorrateiramente quanto chegara e então começou à tomar o chá calmamente. Não tardou e os efeitos do chá vieram à tona, fazendo-a cair em sono profundo em seu leito. Somente acordou alí, naquele lugar sujo.
Não estava surpresa com o comportamento do irmão, mas temia por seu destino. Ele não pouparia nem sua irmã, sua ganância era maior do que qualquer noção de decência em seu caráter.