terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Capt 9 - A Torre

Piscou algumas vezes, fitando Ralph. Uma face tão bela, um coração tão podre. Fazendo uma expressão de desgosto, tentou por-se em pé de maneira desastrada - afinal, aquele repolho em forma de vestido pesava muito e ela não era nem um pouco leve também. Engoliu seco e fitou o padre e em seguida as pessoas na igreja, não perderia a chance de um bom dramalhão.

- Não, não aceito! Espero que morra sozinho e pobre, seu...Porco! - Cuspiu na face de Ralph, que agora se erguia e a fitava estarrecido.

Ergueria as saias de maneira pouco digna e correria pela nave, sendo acompanhada pelos burburinhos gerais e pelos gritos de Ralph. Foi interceptada por Jonathan, que a apertou com força contra o próprio corpo. Madelyn lhe daria uma bela mordida na mão e lhe chutaria a virilha, saindo correndo em seguida e percorrendo o tapete rubro e saindo da igreja em seguida, encontrando um cavalo à sua espera. Seu pai deveria estar desgosto, talvez nunca houvera tão grande vexame naquela igreja. Voltaria a face para trás e fitaria Tereza, que lhe sorria de maneira satisfeita. Ela havia planejado tudo aquilo. Sentiu que, pela primeira vez na vida, tinha uma amiga.

- Ok, eu preciso de um regime. Mas por favor,antes disso, me tire daqui cavalinho. Vá, vá! - Novamente, de maneira atrapalhada, conseguiu montar o cavalo e em seguida o fez correr, sabendo que o pobre animal exigia o máximo de sí. Tereza sabia que era uma ótima amazona, mostra de quão boa observadora era, capitando todas as conversas que haviam naquela casa.

Madelyn sabia que estava sendo seguida e com aquela vestimenta nada discreta, logo seria flagrada. Embrenhou-se no meio do mato, numa ação de desespero, encontrando um pequeno casebre. Apostando na boa fé das pessoas, ela desmontou o cavalo e encontrou um velho senhor, fumando seu cachimbo em frente à casa.

- Por favor, poderia me emprestar algumas roupas?

O homem caiu na risada, vendo aquela noiva chique num cavalo velho, pedindo roupas para um pobretão. Mas não hesitou em lhe emprestar as roupas, que ficaram curtas e apertadas em Madelyn. Mais uma vez ela praguejou seu tamanho, não era bom ser tão alta em alguns momentos. Prendendo os cabelos rubros pelo chapéu, deixou o vestido sobre a cama do homem e lhe disse para vender por um bom dinheiro. Tão famosa ficaria com aquele acontecimento na igreja, que o vestido certamente seria comprado.

Em questão de minutos, voltava a percorrer o caminho para Wildenthorn. Por mais que fosse péssima em localizações, jamais esqueceria o caminho do lugar em que fora tão feliz. Alexander. Ele a amava e precisava dela, algo lhe dizia que se não chegasse logo, algo terrível aconteceria.

Começava a chover e ela ao menos pode se sentir mais refrescada, assim como o pobre cavalo. Anoitecia e Madelyn começava a admitir que estava com medo. Era uma mulher desarmada, não sabia o que enfrentaria pela frente. A sorte é que Alexander era um bruto, e isso era algo bom em determinados momentos. Pode respirar mais aliviada, quando viu o castelo surgir ao horizonte. Fez com que o cavalo galopasse com mais rapidez e o desmontou assim que chegou aos jardins, correndo por entre os mesmos de maneira desesperada. Assim que adentrou ao salão, começou a gritar.

- Alexander! Alexander, onde você está?! - Nada, nada lhe respondeu. Enquanto caminhava pelo lugar, pode notar que nenhuma vela estava acesa e teve que seguir seus instintos, já que conhecia aquele castelo como sua própria alma. Percorreu o jardim, em silêncio e então seguiu para o quarto de Alexander.

Desceu as escadarias do quarto rapidamente, deparando-se com a pequena floresta com o caminho de pedras, o percorrendo rapidamente e fitando o estudio de pintura ao longe. Vidros quebrados, tudo estava bagunçado e isso era visível ao longe. Nada incomum, tratando-se de Alexander e seus ataques de fúria. Seu pensamento era tranquilo até que viu o violino quebrado, à porta do lugar. Ele jamais quebraria seu violino. Engolindo seco, Madelyn adentrou ao estudio correndo, deparando-se com todos os espelhos quebrados.

Até que foi tomada por uma grande surpresa. Havia retratos seus por todos os lados. No mínimo vinte quadros de todos os tamanhos, retratando-a em diversas situações. Rindo, chorando, tocando o piano, descansando no jardim, dançando no baile com um mascarado. Foi então que viu um quadro, o maior deles, ainda não terminado. Havia alí ela, sentada no jardim com uma criança nos braços e outra ao seu lado. Um homem em pé, bem vestido e sem face.

Sem nenhuma face. Era como se ele não aceitasse que Ralph fosse o homem que desposaria Madelyn. E que não pudesse entregar-se ao sonho de tê-lo alí, em sua imaginação, ao lado da mulher de sua vida. Com lágrimas nos olhos, mal pode notar que não estava só.

- Pensei que essa hora estivesse nos braços de Ralph Dragear, maninha... - Ela foi tomada por um susto e voltou seus olhos para Gerard, que estava no aposento. Madelyn estava muda, sem saber o que dizer e Gerard se aproximava lentamente.

- Fico feliz. Ao vê-la em todos estes quadros, me senti arrependido de ter deixado que Ralph se casasse contigo, irmã. Eu...- Ele se aproximou ainda mais, inclinando a face na direção de Madelyn e tirando-lhe o chapéu, deixando com que os cabelos rubros caíssem pelos ombros. Em seguida os acariciou, como se acariciasse uma amante. Ele estava evidentemente feliz em tê-la alí. Em seguida a abraçou forte contra o corpo. - ...queria tanto poder me casar contigo. Pena que não nos é permitido, não é mesmo...? Mas será que é errado algo que é feito por amor?

- Me solte, Gerard. Estou avisando...

- Ah, virou homem é? Ví sua vestimenta máscula, achei realmente interessante. Sempre tivesse trejeitos de homem, era corajosa e briguenta, sem muita delicadeza e cuidados com a feminilidade. Jamais seria uma lady, por mais que desejasse...Acho que encontrou seu verdadeiro eu, não é? - Gargalhou e Madelyn lhe deu um pisão no pé, que o fez apenas gemer. O desejo de ficar com ela nos braços era maior.

- Agora não é hora para isso, Gerard. Onde está Alexander?

- O demônio?

- Ele não...- Madelyn suspiraria, resignada. - Sim, o demônio.

- Conquistou ele, hum? O que serás que possui, irmãzinha, que faz com que os homens a amem tanto? Afinal, não é requintada e nem tão bela. No enquanto, Alexander e Ralph a amam, assim como eu. - Sorria daquela maneira que ela tanto odiava e ela lhe chutou novamente, quando travaram uma briga de verdade. Não podia perder-se pelo temor, o medo de que matassem Alexander era ainda maior e quando pode, ao invés de revidar os ataques de Gerard, fugiu do estudio correndo.

Ele a perseguia e ela teve de pensar rápido, se embrenhando pela floresta enquanto acalmava seus batimentos e pensava onde poderia estar Alexander. Já estivera em todos os lugares, não sabia onde...Foi então que, por entre as árvores, fitou a torre. Sim, a torre! Era lá que ele se escondia e era um lugar perfeito para uma morte disfarçada, de um homem anti-social e escondido do mundo.

Começou a correr, seguindo na direção da entrada da torre, escorregando numa possa de água. Foi então que viu seus dedos tingidos de rubro e pode ter certeza que era sangue. Sufocando um grito, começou a subir os intermináveis degraus, sem parar para tomar fôlego. Ouviu os gritos de Gerard e pode ter certeza que ele começava a subir as escadarias, em seu encalço. Finalmente chegou ao topo, empurrando a porta de madeira com a pouca força que ainda possuía e flagrando uma cena que, tinha certeza, jamais esqueceria.

Alexander estava imobilizado ao chão. Havia um homem com a perna por sobre seu peito, o segurando com força, apesar do mesmo estar ferido. As penas de Alexander estavam rubras de seu sangue, havia sido atingido antes de subir à torre. Era estranho, Madelyn sabia que ele não seria tolo de se enfiar num lugar onde seria encurralado. O outro homem apontava para a face de Alexander, sorrindo como o demônio.

- Agora deixarei sua cara mais feia ainda, Alexander. Achava mesmo que poderia viver na riquesa por tanto tempo e nós, na desgraça?

- Foi você, não foi, Thomas? Você que incendiou o Santa Marta! - Gritou Alexander, parecendo já estár desnorteado com a fraqueza que o tomava. - Você que matou aquela gente, matou meus amigos, matou minha irmã e acabou com a minha vida...

- Engano seu, sua vida acabará agora. - Apontou a arma de cano longo na direção da cabeça de Alexander e naquele momento Madelyn adentrou, feito um furação, pulando na direção do homem e empurrando a arma para o teto de maneira desesperada.

- Diabos! - Gritou Thomas e Madelyn continuou a estapeá-lo de maneira desconexa, já que tinha que manter a arma para o alto também. O homem que segurava Alexander, o mesmo que conversara com Ralph e marcara o assassinato, se aproximou e a puxou para sí, lhe dando alguns murros. Quando Madelyn não pode mais suportar, foi jogada ao chão e bateu com a cabeça contra a parede, ficando com a visão vidrada e a cabeça dolorida.

- Pelo visto você será a primeira... É uma pena, adoraria me divertir. Mas... Não será a falta de vida neste corpo que irá me impedir, não? - Ambos os homens riram e Madelyn sentiu-se enojada com aquele pensamento, enquanto tentava se erguer. Mas a dor na cabeça era forte demais, não conseguia sequer focalizar nada.

- Alexander... Desculpe-me, desculpe-me...- Murmurava, enquanto sentia as lágrimas nublarem ainda mais sua visão e arranhava a parede de pedra, tentando erguer-se.

- Diga adeus, vadia. - Thomas lhe apontou a arma e ela fechou os olhos, já não via nada. Escutou o desparo e ao mesmo tempo algo caiu por sobre sí, um corpo. Não fora atingida!

- Diabos, Gerard! O que fez seu idiota?! - Ouviu a voz de Thomas praguejando e abriu os olhos, encontrando o corpo de seu irmão contra o seu. Naquele momento pode escutar um grito desconexo e ela acabou por se erguer. Estava alarmada por Gerard, ele havia salvo sua vida! Mas desejava salvar à todos e com aquele pensamento se pôs em pé, seguindo na direção do estranho, que estava em frente à janela, e Madelyn pôs-se a golpeá-lo com a pouca força que possuía. Já enfraquecido pelos golpes que levara de Alexander, que se aproveitou da situação e se pôs em pé assim que o homem o soltou para ajudar a livrar Thomas de Madelyn, ele estava quase desacordado quando Madelyn lhe deu o último golpe, que o fez cair pela janela desnorteado.

Quando por vim voltou-se, viu que Alexander derrubara Thomas no chão e o golpeava na face. Parecia realmente que um demônio havia o tomado, o golpeava de maneira brutal.

- Maldito, destruiu minha vida!

Thomas estava já ensanguentado e então Madelyn se aproximou, tomando a arma em mãos e a jogando para fora da janela, onde nenhum dos quatro pudesse tê-la em mãos. Em seguida se aproximou de Alexander, o puxando pelos ombros.

- Pare, Alexander! Pare! Ele já teve o que merecia!

- Não, não... Nunca terá o que merece, nunca terá! Ele me tirou tudo!

- Eu estou aqui, Alexander. - Disse de maneira calma e apertou-lhe os ombros, e naquele momento ele deixou de golpear Thomas. Se voltou para Madelyn e a abraçou de supetão, com a respiração alterada.

- Nunca mais me deixe, Madelyn. Sou tão idiota, tão burro... Me prometa que jamais me deixará. Jamais! - Murmurava contra seus cabelos e Madelyn sorria, apesar de toda aquela dor. Novamente estavam alí, um curando a dor do outro, como dois passados feridos. E assim seria para o resto de suas vidas, se completavam.

- Eu te amo, Alexander. E nunca mais o deixarei. Nunca mais. - Se afastou e o fitou, sorrindo. Pode sentir que ele sorria por trás da máscara e então sentiu-o cambalear, o levando até a parede para que se apoiasse. Naquele momento correu na direção de Gerard, que estava caído ao chão. Virou-o para fitá-lo e pode sentir que ele estava vivo, respirando com grande dificuldade.

- Madelyn...? - Gerard focalizava o teto, como se seus olhos já não pudessem mais ver nenhuma imagem em especial. Ela tomou sua mão entre a dele, a apertando com força.

- Estou aqui, Gerard. Muito obrigada, salvou minha vida. - Falou rapidamente, enquanto apertava ainda mais forte a mão dele. Alexander se aproximava, se sentando postando ao lado de Madelyn. Ela, por sua vez, estava trêmula ao ver que a vida de Gerard esvaíasse como a areia entre os dedos de um viajante.

- Eu...

- Não fale, meu irmão. Iremos salvá-lo. - Ela forçava um sorriso por entre as lágrimas e então as íris de Gerard se fixaram em sua imagem e ele apertou sua mão.

- Eu...Eu sempre a amei, Madelyn. Sempre. - Fechou os olhos e engoliu seco, deixando cada vez mais fraco a pressão de sua mão contra a de Madelyn. Ela, por sua vez, se aproximou mais e ele novamente ergueu os olhos, erguendo uma das mãos e acariciou a face da irmã.

- Sei disso, Gerard. Sempre soube.

- Me perdoa? Madelyn... Fui tão ruim, mas tente compree...-Respirou fundo, seu peito arfou. Madelyn sentiu o toque de Alexander em seus ombros, lhe passando forças.

- Sim, Gerard. Já o perdoei. E sei que papai também. - Sorria-lhe, tentando lhe dar forças.

- Ore por mim, minha irmã. Cante...

Entendendo o que o irmão pedia, Madelyn começou a cantar um cantigo religioso que ela e o pai cantavam aos domingos, após o culto, antes do almoço. Gerard sempre os fitava ao longe e, naquele momento, Madelyn descobriu que ele se sentia só. Em alguns momentos de "lucidez", Gerard sabia o quão doentias eram suas ações. Agora vivia uma grande lucidez, e morria alí, arrependido e feliz, feliz por morrer nos braços da pessoa que mais amara em sua vida. Feliz por saber que Madelyn estava alí, ao seu lado. Feliz por tê-la salvo e por saber que ela viveria em paz, finalmente.