terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Capt 6 - Três Anjos

Viu-se naquele reflexo das águas do pequeno lago, que tinha sua água levemente corrente e que levava as lágrimas da moça junto, seja lá para onde for. Evangeline piscou os olhos fortemente, secando as restantes com as costas das mãos e respirando fundo. Chorava ao fitar a própria imagem naquele reflexo, envelhecida e mal cuidada. Um grande aperto em seu peito surgia ao fitar aquela imagem, pensando no que fora e tudo que passara em sua vida, em páginas amargas e ao mesmo tempo tênues, como se sua vida fosse algo ínfimo naquele universo.

- Mãe? - Evangeline voltou-se de prontidão e sorriu para a figura infantil que se aproximara de sí. Os cabelos encaracolados e negros da menina estavam voando contra o vento, seus olhinhos fechavam-se de maneira delicada para que não fossem feridos com a violêncida daquele sopro da natureza. Involuntáriamente Evangeline sorriu e fez um sinal para que a menina se aproximasse.

- O que foi, Claudia? -Em puro deleite, acariciou a face da menina delicadamente enquanto essa sentava-se no colo da mãe, fitando-a de maneira curiosa.

- Estava chorando, mamãe?

- Estava querida. - Evangeline não mentia para a menina, sabia que a sensibilidade da mesma prontamente a desmascararia.

- Saudades do papai? - Arriscou a menina.

- Hum, o que acha de ajudar a mamãe a levar essas roupas para dentro? - Sorriu Evangeline, rapidamente mudando de assunto. Claudia aceitou de prontidão, ajudando a levar para casa alguns panos de prato. Respirando fundo, seguiu para o caminho de sua casa.

Se parasse para pensar os caminhos que a levaram para aquela vida, não passaria de uma história contada em alguns minutos. Em uma visão externa, com os julgamentos de um bom ouvinte, certamente a crucificariam. Mas Evangeline sabia que sua história não era tão simplória e que suas escolhas foram extremadas e nada inconseqüentes. Os golpes que a vida lhe daria á seguir, esses sim, ela jamais sofreria.

Adentrou na cada de pedras à vista e fitou a casa bagunçada. Lembrou-se do seu próprio lar onde após noitadas de jogatina a casa se tornava uma bagunça exagerada. Cansada, deixou por algum tempo as roupas sobre a mesa de madeira e ergueu uma cadeira, sentando-se sobre a mesma e tentando lembrar onde errada em sua vida.


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- Hey, aqui! - Evangeline ergueria sua cabeça do travesseiro que haviam lhe arranjado naquele malfadado convento que seus irmãos haviam a enviado à pouco mais de um mês. Sentiria a luz ferir seus olhos e então encontrou a já familiar figura do jovem paroco que vinha lhe visitar todas as manhãs.

- Noah, seja mais discreto! - Rindo, se aproximou da janelinha pequena e se equilibrou pé ante pé até poder ao menos fitá-lo nos olhos. Era um rapaz de pele clara e magro, de olhos melancólicos e sorriso fácil. Imaginava que o simples contato dele com uma jovem de sua aproximada idade - e com saúde mental - lhe trazia uma estranha alegria.

- Está de castigo novamente, Evy? - Gracejou o seminarista enquanto lhe contrabandeava uma maçã. Evangeline deu de ombros, dando uma mordida na fruta ainda se equilibrando nas pontas dos pés.

- Sim, você acredita? Eu não sou maluca e eles querem me escravizar como fazem com as outras. Se é assim, prefiro realmente me fazer de doida e não trabalhar para esses mortos de fome. - Dessa vez Noah riu alto, também comendo uma maçã. Próximo ao convento existia um mosteiro para jovens padres e rapazes mandandos para lá por suas famílias, por algum motivo que ninguém ousava comentar.

- Não acredito que tirou a roupa novamente em meio à plantação de trigo! - Evangeline fez um sinal positivo com a cabeça e ambos tiveram que segurar a risada, fazendo os olhos lacrimejarem. Por fim respiraram fundo e se conteram, comendo suas respectivas frutas e guardando alguns pensamentos para sí mesmos.

Noah começou a visitar Evangeline na segunda semana que a jovem estava no convento, após a sua segunda aparição nua no meio da plantação dizendo que um anjo dos céus estava a buscando naquele momento. Mais interessado naquela figura insólita do que na possível aparição, este a visitou em seu quarto. As próximas visitas foram escondidas, num clima de intimidade e respeito que surgiu entre ambos. A moça o via como um bom amigo, um raio de luz no meio de toda aquela tristeza. Para ele contara toda sua história, desde a morte de sua mãe até as armações de seus irmãos e por fim o seu amor por Richard. Ele acompanhara tudo com um olhar impessoal e ao mesmo tempo paciente, como se a ouvisse tal qual as confissões a um padre. Pouco dizia da própria vida, apenas que fora deixado naquele mosteiro à alguns anos por sua família e que não queria ser padre, mas fora designado por sua linhagem para tal. Não era um ser muito artístico e nem muito culto, o que era praticamente uma heresia num mosteiro.

- Evy, que fim acha que teremos? - Noah acabou com o silêncio após algum tempo trazendo à tona um assunto que Evangeline tanto hesitava em pensar. Por fim ela deu de ombros, desviando os olhos do seminarista. Este pode fitá-la e viu a sua figura levemente iluminada pela pouca luz que adentrava ao aposento. Pequena, de cabelos emaranhados e praticamente desnutrida. Não sabia de onde a jovem ainda arranjava força para lutar contra as freiras daquele lugar.

- Eu tenho medo, Noah. Vejo que aos poucos as moças aqui estão sumindo, eu... Eu acho que alguns de nós, aqueles que não tem "correção", são sacrificados feito animais doentes.

- E a senhorita acha que farão isso contigo...? - Arriscou o rapaz.

- Acho, acho sim. Meus irmãos jamais permitiriam que eu vivesse muito tempo. Por mais que sobrasse alguma faísca de amor fraternal, eu sei demais. Se fosse falar o que sei, acabaria com a vida de ambos. - Jogou o que restou da maçã no canto de seu quarto, sem se importar com as formigas que logo surgiriam.

- Então fuja comigo, Evy. - Disse o rapaz, segurando de leve a janela do aposento do lado de fora. Não era a primeira vez que ele o fazia e Evangeline sentia seu coração bater mais rápido ao ouvir aquilo.

- Não posso, Noah. Eu...

- Case-se comigo! Vai cuidar de mim e eu de você. Tenho uma casa à 3 milhas daqui, podemos pegar o dinheiro que possuo e investir numa plantação, comprar alguns animais...

- Não posso me casar com você amando outro! E se Richard aparecer? - O tom de voz de Evangeline era forte.

- Richard está morto, Evy! Morto! - O rapaz praticamente gritou, assustando a moça que por sua vez sentou-se na própria cama. Noah continuou. - Depois que me contou sua história, pedi a um irmão meu que pesquisasse sobre o que aconteceu com seu irmão mais velho e com seu noivo. Ambos morreram, nenhum deles sobreviveu às queimaduras do incêndio. Eu...- o tom de voz do rapaz se tornou vacilante.- ...realmente sinto muito.

- Não... Eu os salvei, veja! - Estendeu as mãos para frente, ambas com marcas de queimado. Noah fechou os olhos e fez um sinal negativo com a cabeça, fazendo um sinal da cruz em seguida. - Sinto muito, Evy. Eu não queria te contar, preferia que vivesse eternamente com a ilusão de que eles fossem surgir aqui e te tirar desse convento. Mas se a morte está aqui, eu preciso te salvar!

- Quem sabe é esse meu destino, Noah. Encontrá-los dessa maneira. - Murmurou Evangeline, baixando a cabeça e fechando os olhos, tentando controlar as lágrimas.

- Não, seu destino é sobreviver. Venha comigo, por favor. Vamos nos salvar desse destino! Tenho certeza que Deus a enviou para mim, é um sinal Dele. Já avisei ao meu irmão, durante à noite ele a buscará aqui no convento. Paguei uma quantia em dinheiro para uma noviça para que abrisse as portas e deixasse você fugir. Bem, eu tenho que ir. Até mais tarde, Evy!

Evangeline não teve nenhuma reação desde que Noah partiu de sua janela. Fitou as sobras das árvores sobre o chão até que estas sumiram com o pôr do sol. Deixou suas lágrimas escorrerem por sua face por toda a tarde e com o anoitecer, estas sumiram por completo. Tal qual um ser movido por sua natureza, conseguiu fugir de maneira furtiva do convento. Encontrou um homem de aproximados 30 anos numa carruagem, que lhe fez um fraco meneio com a cabeça ao adentrar e ambos partiram com o galopar dos cavalos. Chegaram à tal propriedade quase ao amanhecer e a primeira impressão que Evangeline teve da casa era de que a pouca felicidade que seu coração ainda conseguiria receber na vida seria fruto daquele lar.


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- Sempre com os olhos perdidos assim, Evy? - Disparou Noah, adentrando na cozinha com uma expressão perdida na face magra. Claudia permaneceu ao lado da mãe, como se não tivesse notado a presença do pai no aposento.

- Vai cobrar a mudança do meu olhar agora, Noah? - Evangeline ergueu-se da mesa, tomando a cesta com roupas de encontro com a cintura e seguindo para um pequeno varau que possuía dentro de casa. O seu marido a seguiu com o olhar, fitando-a de maneira estranha.

- Não, não me importo com o seu olhar. Nem com o que fala, pensa, come, veste... - O homem deu de ombros, se aproximando da mesa da cozinha e abrindo um pote de vidro onde haviam alguns biscoitos que sua esposa fizera no dia anterior. -... contanto que a casa esteja inteira quando Marcus chegar.

- Vai estar, não se preocupe.

Marcus, este era o nome do irmão de Noah. Evangeline nunca suspeitara que encontraria na própria vida alguém que pudesse odiar mais que seus irmãos. Mas este sim, fazia-a se sentir a pior pessoa do mundo. Aquele fora o homem que a trouxera para a casa de Noah, de olhos frios e calculistas, olhos de serpente. Aquele homem fizera Noah, a figura mais doce que Evangeline conhecera, se tornar um ser amargurado e preso em sua loucura. Sim, ao contrário do que a jovem imaginara, Noah tinha um sério distúrbio psicológico. Marcus por sua vez tomara partido daquela situação, casando o irmão mais velho - ao contrário do que Noah dissera, era ele o mais velho daquele clã - e tomando o dinheiro deste após o matrimônio para sua livre administração.

O casamento de Evangeline nunca fora real. Na noite em que fora consumado, engravidara de Claudia. Desde então esquivara-se do marido e este aos poucos perdeu o pouco interesse que havia naquela mulher. Marcus o apresentara para diversas rameiras, que lhe tiraram o dinheiro e lhe mostraram um mundo de prazeres muito mais interessantes do que a sua fria esposa mostraria em casa.

- Parece que hoje ele virá aqui com algumas pessoas, combinar seus negócios. - Noah era tão inocente na própria doença que jamais imaginaria que seu amado irmão nada mais era do que um traficante de escravos. Evangeline fitou o marido e forçou um sorriso, fazendo um sinal positivo com a cabeça.

- Tudo bem. - A mulher desviou o olhar da figura patética do esposo, por alguns segundos lembrando-se de Richard. Por mais que o tempo tivesse se passado, jamais o esquecera. Era naquelas lembranças de seu romance relâmpago que encontrava o bálsamo de suas feridas, a força para criar sua amada Claudia. Imaginava o que teria acontecido se ele não tivesse morrido, se ambos realmente tivessem se casado como haviam planejado. Certamente já teriam ao menos quatro filhos, viveriam em Longburn com Vivian e procurariam viver a vida de maneira correta e digna.

A realidade era um choque para Evangeline, mas este já não lhe trazia dor. O que ainda lhe trazia dor era ter de conviver com seu cunhado e Noah, a quem não odiava. Não. Sentia um misto de nojo e rancor do rapaz, mas sabia que não iria odiá-lo nunca. Sabia que este logo padeceria de sua frágil saúde e morreria, deixando sua tão desconcertante vida para trás. Noah havia contraído uma doença que nenhum médico sobe diagnosticar, mas dia a dia tornava-se mais magro e pálido. Evangeline e Marcus sabiam que o rapaz duraria pouco tempo e o pouco dinheiro que ainda lhe restava, caíria nas mãos do irmão, o tutor de sua filha.

- Ainda com essa cara, Evangeline? Vai, trabalhe! - Riu Noah, com a boca cheia de biscoitos. Dando de ombros, Evangeline tornou a trabalhar, desejando sumir com sua filha o mais rápido possível dalí.


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Foi estranho depois de dez anos voltar para a sua cidade natal. Ninguém reconhecia Richard em suas vestimentas gastas, com seu cabelo crescido preso num pequeno rabo de cavalo e a barba surrada. Seus passos eram lentos, tentando acompanhar a limitação de sua perna debilitada. Sentia o olhar das mulheres em sua direção, Demien era a imagem daquilo que nenhuma mãe queria para suas filhas - mas que ao mesmo tempo sonhara em seus próprios leitos.
Deixara aquela cidade como um almofadinha de pouca auto-estima e medo do mundo, fugindo de sua dor e daqueles que tanto lhe fizeram mal. Agora retornava com propósitos claros. Seu primeiro plano foi reencontrar a irmã, mas logo remediou-se. Não tornaria a encontrar Vivian até que seus assuntos fossem acabados. Não queria envolvê-la em suas vinganças.

A primeira coisa que o surpreendeu foi a notícia do casamento de Alexander Dragear. Aquele velho diabo estava vivo e casando-se naquela tarde! O amado irmão de Evangeline, talvez este soubesse alguma pista dos próprios irmãos. Sabia tão pouco da vida de todos alí que confessava à sí mesmo estar um tanto quanto hesitante em começar as suas próprias pesquisas.
Foi fácil adentrar ao castelo naquele dia de festa, o que fez logo a mente já calejada de Demien imaginar planos maquiavélicos para uma invasão sangrenta caso alí estivessem os outros irmãos Dragear. O que era óbvio que jamais aconteceria.
Já a conversa com Alexander foi pouco produtiva, mas algo alí acontecera para acalentar seu coração. Vira Vivian. Por de trás de uma janela, vira-a bela e já madura ao lado de um rapaz que lembrava vagamente. Diabos, ela não se casara com John então! Bem, o coração de Demien se acalmou ao ver o quão feliz ela estava ao lado daquele outro homem.

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- Do que está falando, mulher? - As palavras de Richard eram lentas e pausadas, como se dizê-las fosse um sacrifício. Por mais temerosa que parecesse, Tereza ergueu o queixo de leve e continuou.

๑ Cristinα

- É isso mesmo que ouviu, senhor. Evangeline Dragear tem chances de estar viva. - Richard naquele momento se voltou por completo para a mulher, ainda sem acreditar nas palavras da mesma. A fitou por completo, observando o decote generoso e o vestido que colava às curvas da mesma. Não era de julgar as pessoas pelas aparências, já que convivera com os piores tipos de piratas e rameiras naqueles dez anos. Continuou em silêncio, enquanto notava as pupilas da mulher se dilatarem de leve ao notarem o olhar do homem a analisando.

- Seus irmãos a mandaram para um convento, o convento de Santa Sophie. - Suas palavras estavam atrapalhadas e então Richard tornou a se aproximar, sentindo que a mulher estava mais nervosa à cada passo seu. Riu consigo mesmo, aquela mulher por mais boa índole que pudesse possuir, ainda era a Tereza Dragear que conhecera quando jovem. Seu ego e sua luxúria sempre seriam a cicuta que esta tomaria para chegar ao seu fim. Por fim sorriu para a mesma, um sorriso rasgado e sem grandes promessas e partiria. Tereza ficaria alí, tal qual um anjo de pedra, imóvel em sua beleza e estupefata. Richard a surpreendera e não sabia o que esperar daquele homem.