- Morta?! - Até mesmo o velho James, um passivo ouvinte daquela história tão triste, se exaltou com o que Demien acabara de dizer. O homem por sua vez deu de ombros, amargurado.
- Perdera a vida salvando a do irmão e de seu noivo. - Os olhos negros do pirata estavam fixos no oceano, como se a gritaria de seus colegas fosse algo tão distante que jamais tocaria sua consciência naquele momento. Lembrava-se apenas da aflição que sentira em seu peito, do olhar piedoso da jovem enfermeira.
- Diabos, isso eu jamais imaginaria! - O velho daria um murro contra a madeira do convés, parecendo realmente encomodado com a resolução da vida daquela jovem que em poucos minutos de conversa o cativara mesmo que platonicamente.
- O que ninguém imaginaria é que aquele pesadelo findaria alí, naquele hospital, com a pior notícia da minha vida.
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Os dias se passaram rapidamente, embora Richard tivesse perdido a total noção do tempo. Fitava um pequeno relógio que estava preso na parede, um guardião e ao mesmo tempo um algoz, que anunciava que perdia cada minuto daquele. Perdia, parecia já não ter mais razão nenhuma para viver. O único laço que ainda o mantinha vivo era a esperança que naquele momento Vivian já estivesse casada com seu rico pretendente, John. Sim, assim poderia sumir no mundo ou esperar a morte. Talvez, daquela maneira, fosse encontrar com Evangeline.
- Senhor, seria bom se comesse algo. Não comeu nada hoje. - A enfermeira murmurou, solícita. Parecia mais pálida que o normal, forçando um sorriso. Naquele momento, pela primeira vez em semanas, a fitou com o mínimo de interesse.
- O que aconteceu, enfermeira? - Murmurou com os seus lábios secos.
- Nada, apenas quero vê-lo bem.
- Me ver bem e corado para ao menos ser enterrado belo? - Riu de escárnio, surpreendendo a mulher. Sabia que não estava num hospital, tão pouco aquela mulher era uma enfermeira de verdade. Aquele era um galpão abandonado e alguém pagava o salário daquela coitada. Dias antes havia ouvido uma conversa entre ela e uma voz masculina, que reconheceu como a de Ralph. Desejavam-no bem para alguma armação, como fazê-lo parecer ser o algoz da morte de algum homem importante para logo ser condenado à forca, no lugar deles.
- Não sei do que está falando, senhor. - Respondeu a moça, nervosa. Richard tomou o pulso da mesma com uma força estranha para alguém tão pálido e fraco.
- Eu ouvi tudo, senhorita. Sabe que olhando bem agora, sua face não me é tão estranha...? Diga-me, é uma das moças que "trabalham" na casa dos Dragear, não é mesmo?
- Senhor! - A garota usou da própria surpresa para fingir um espanto embaraçado. - Está me ofendendo!
- Diga-me, quanto irá receber para dar-me pronto para o abate? - Riu novamente o homem, tendo um divertimento um tanto quanto maléfico naquele momento com a expressão da moça. - Deve ser uma sensação estranha, vendeu sempre seu corpo e agora venderá o de outro. Um corpo que logo estará gélido, com a moral mais suja que o pecado.
- Vai morrer de qualquer jeito, senhor. - O queixo delicado da moça ergueu-se, finalmente demonstrando alguma faceta real de seu caráter.
- E já que vou morrer que qualquer maneira, vai ganhar um dinheiro com isso... Acertei? - Soltou a mão da moça, encostando-se sobre os travesseiros e a fitando de maneira cansada. - É, talvez esteja certa. Minha vida nunca valeu muito, uns trocos para uma meretriz quem sabe a ajude a comprar um pouco de ópio e esquecer da própria existência.
- Ópio! O senhor não sabe de nada mesmo! - A "enfermeira" massageava o pulso, o fitando com raiva. - Não sabe nada da minha vida para dar tão pouco valor para ela!
- E a senhora não está fazendo o mesmo comigo? - Retrucou Richard de maneira calma, fitando-a com uma estranha paz em seu semblante.
- Eu... - A enfermeira perdeu as palavras, sentando-se no banquinho ao lado do enfermo e desviando o olhar do mesmo. Richard a observou melhor e viu que aquela pobre moça não era tão ruim quanto imaginava. Era uma moça perdida, certamente trazida do interior e perdida entre a má fé dos homens de posses. Um joguete que assim que perdesse a utilidade e a beleza da juventude, seria encontrada em algum beco morta pelo uso de drogas.
- Deixe-me ir, senhorita. Prefiro ter qualquer fim ao ter de servir para algo aos Dragear. Jamais odiei tanto alguém como odeio aqueles dois homens. Eles fizeram mal à quem eu mais amava.
- Se fores, qual será meu fim senhor? Não sou tão boa como imagina, não trocarei tua vida pela minha. - A moça sussurrava, aproximando-se da pequena janera e erguendo de leve a cortina, vendo se algum dos homens Dragear surgia. Era visível que queria deixar aquele lugar e aquela vida tão rapidamente quanto Richard o queria.
- Garanto que já mecheu em minhas coisas. Mas imagino que não notou que em meu paletó existe um fundo falso. - Riu da própria malandragem. - Existe dinheiro alí, será todo seu.
- Está sendo tolo, posso muito bem pegar o dinheiro e deixá-lo para os leões. - Disse a moça, aproximando-se do paletó e tateando o tecido escuro.
- Eu sei. Mas também sei que não o fará. - Os olhos azuis da moça o fitaram com surpresa naquele momento. Ela segurou o tecido em que havia o dinheiro entre as mãos, torcendo-o de leve por entre os dedos de maneira nervosa. - Minha irmã sempre dizia que em nossa vida existiam sempre três anjos terrenos para nos ajudar. Você tem olhos de anjo, "enfermeira". Irá tomar esse dinheiro e lhe darei o endereço de um bom amigo meu que lhe dará um bom emprego em sua propriedade. Deixará essa vida de vergonha para trás assim como esquecerá de mim.
- Mas senhor...
- Não pense, anjo. Faça o que é bom para tí.
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- E o anjo? Como era o nome? - James, como sempre, procurava saber ávidamente dos detalhes das mulheres. Era mesmo um grande mulherengo e fez com que Richard risse.
- Não sei o nome dela, nunca procurei saber. Sei que Etan Thompson, meu bom amigo, lhe deu uma ocupação em sua casa confiando nas palavras da moça. Nunca mais ví meu amigo.
- E quanto a tí?
- Não estou aqui, na sua frente? - Riu Demien e o velho fez-se incontente com a resposta. O pirada deu de ombros e continuou. - Bom, quanto a Richard....
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A moça fez apenas o que o enfermo disse. Ambos saíram do pequeno galpão na noite de festejos e jogatinas na casa dos Dragear. Felizmente não havia nenhum homem à postos os observando, o que fez o plano sair mais fácil do que ambos imaginavam. Deixando Richard numa carruagem, o "anjo" deu um pequeno sorriso polido e enviou-o para uma cidade litorânea, onde provávelmente nenhum dos Dragear pudesse procurá-lo. Pelas contas de Richard, naquele momento, sua irmã já estaria casada e esquecendo que um dia foi irmã do dito culpado do incêndio do Galpão de Santa Marta.
Procurava não pensar na irmã. Não queria sentir-se tentado à voltar e vê-la. Seria perigoso para a vida da mesma, ainda mais esta agora sendo a esposa de alguém tão influente. Mas era o pensamento em Evangeline que o torturava. Imaginava-a sendo corroída pelo fogo, morta pela ambição de salvá-lo e salvar o irmão. Morta pela maldade do mundo. Era a imagem de sua amada que o amargurava e Richard, assim que pisou ao cais daquela cidade que sequer sabia o nome, procurou um bom bar e por alí passou algumas noites. De dia dormia, de noite bebia. Até que seu dinheiro acabou e foi posto na rua.
Doente, pobre e sem esperanças da vida. Agora a idéia da morte pelas mãos dos Dragear não lhe parecia tão ruim, mas logo remediava sua idéia tola e lembrava que foram aqueles dois que destruiram sua vida. Sua vida e de Evangeline. Preguejava, chorava. Aos poucos, esquecido num canto do cais, recebia algumas esmolas ao dia. Mas nem força para gastá-las tinha. Até um dia que encontrou uma moça que vinha chorando em sua direção, com as vestes rasgadas. Era noite, ela vinha da direção de um dos barcos. Evidentemente que era uma meretriz mas algo a encomodara. Com a pouca força de possuía, ergueu-se e a tomou nos braços, protetor. Fazia tanto tempo que não sentia o calor de alguém contra seu corpo que sentiu seu coração bater mais rápido, descompassado.
- O que aconteceu? - Perguntou com uma voz rouca, notando-a ainda mais máscula. Fazia tempo que não a ouvia, apenas ouvia seus próprios pensamentos masoquistas. Talvez realmente tivesse envelhecido.
- Eu vi o que não devia, senhor. Ele quer me matar! - A mulher não o fitou, apenas virou os olhos para trás e apontou para um grandalhão que vinha atrás desta. Rapidamente ela se voltou para Richard, fitando-o nos olhos. Não era uma mulher bonita, a vida já havia a maltratado em demasia. - Ele matou o homem com quem eu dormia, roubou-lhe uns papéis e então me viu!
- Cala boca, sua vagabunda. - O homem se aproximou, era realmente grande e barbudo. O típico pirata bonação, pensou Richard. - É esse magrela que vai a salvar? O mendigo e a prostituta, que par perfeito!
Richard não ficou nervoso com o que este falava sobre ele. Sequer fitou a moça e tão pouco notou que alguns homens vinham dos navios e observavam a confusão. O grandalhão parecia nervoso e rapidamente tentou fugir, sendo aplacado com a multidão de homens que surgia e o envolvia no cais. Richard fitou a moça em seus braços e naqueles olhos escuros pode ver um medo imenso, o mesmo medo que havia dentro de sí. Um medo de viver, de encarar a própria dor. Lembrou de seu pai, numa das últimas vezes que o encarara, temeroso em deixar o cuidado de sua fortuna e de sua filha com seu filho inconstante. Lembrou-se da irmã, que nunca em sua vida deixara de dar-lhe um bom abraço e que avidamente sempre desejara-lhe amar e, finalmente, lembrou-se de Evangeline e de como ela o odiaria vê-lo daquela maneira. Foragido, fraco, temeroso. Um morto-vivo.
Com aquele pensamento em mente, Richard deixou a moça de lado e se aproximou do grandalhão. Viu na face avermelhada do pirata a face de todos seus desafetos e sentiu um ódio tão grande que precisou botá-lo para fora de sí usando até mesmo de sua força física. E com esta força, que sequer sabia que possuía, o rapaz surrou o grandalhão. Não se lembrava até hoje de como o fizera, fora dominado pela raiva, seus olhos tornaram-se turvos. Quando deu-se por sí já estava dentro do navio de James, sendo cuidado pela moça que salvara e que até hoje, quando a encontrava naqueles cais, demonstrava uma eterna gratidão.
O velho James o acolheu entre os seus quando viu aquele rapaz pálido e fraco surrrar alguém com o dobro de sua força, apenas para salvar a vida de uma pobre meretriz. Pela primeira vez o velho pirata temeu alguém em sua vida, viu naquele rapaz alguém que era dominado pelos seus demônios. Num acordo entre ambos, o jovem trocaria a moradia no navio e a comida pelo seu trabalho. Mostrou-se um homem estudado e perspicaz, diferente dos brutos que havia alí. Era inteligente e esperto, desde que pisara no "Nefasto" não haviam perdido nenhuma batalha, haviam juntado grandes fortunas. A vida daqueles homens melhorou muito, James Sullavan tornou-se temido entre aqueles mares graças ao seu braço direito, o "Lobo".
Os acordos eram justos. Quando era Demien que descobria algum tesouro ou barco a ser saqueado, ficava com 40% dos lucros. E, como geralmente era o que acontecia, com o passar do tempo acumulou uma grande fortuna. Ao contrário dos demais, tinha uma vida reservada e de poucos gastos. Apesar de sua fama, era modesto e discreto, mantendo-se sempre como um simplório marujo. Quando deu por sí, passou-se 10 anos desde que vira sua irmã pela última vez. Tornou-se um homem forte e calejado pelas batalhas, aventuras e seus próprios temores, que tanto o atormentavam.
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- E agora? - Disse James, a queima-roupa ao seu braço direito.
- E agora o quê? - Demien voltou-se para trás, fitando-o enquanto se encostava numa das paredes da embarcação, fitando o velho com seus tão temidos olhos.
- Eu sei que pretende nos deixar, lobo. - O velho mostrou-se um tanto quanto temeroso. Demien se aproximou do mesmo, mancando de leve, uma marca de uma seqüela do incêndio do Galpão de Santa Marta.
- É, eu pretendo mesmo. - Sentou-se ao lado de James, esticando a perna ferida e suspirando de dor. Antes que o corajoso capitão do Nefasto expusesse sua curiosidade, ele continuou. - Quero procurar minha irmã. De modo passivo, deixo claro, não quero arruinar sua vida com John.
- Só isso?
- Não, pretendo me vingar daqueles que acabaram com a minha vida. Acabaram com Evangeline. - E então ergueu-se. Seguiu até o próprio aposento, levando consigo apenas um tipo de valise improvisada. Ao contrário de seus outros homens, Demien colocara sua fortuna em bancos ou com pessoas de "confiança", que conhecera nas outras adversidades de sua vida. Deixara algumas de suas esculturas para o velho capitão e um remendado mapa de um tesouro que comprara de uma cigana. Era seu legado para aquele navio que o acolhera por tanto tempo, onde alí fizera sua suja fortuna. Foi a última vez que James Sullavan viu seu melhor homem, mas jamais esqueceu da sua imagem esguia caminhando por entre o cais e partindo sem olhar para trás. Assim era o lobo, forte e destemido. Não temia nada e nem ninguém, apenas à sí mesmo.