terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Capt 5 - A Torre

Os dias se seguiram numa rotina agradável. Aos poucos fora melhorando, curando seus ferimentos e recuperando a agilidade de sua perna. A biblioteca já estava impecável, e Madelyn encheu-se de orgulho ao notar o trabalho terminado. Afinal, se passaram dois meses. Lilly a tratava com uma intimidade distante, como se estivesse a alertando que logo deveria partir. Mas Madelyn parecia postergar a realidade, não queria partir dali. Se sentia segura naquele castelo, com aquele relacionamento distante com o "anjo".
Sim, considerava que havia um relacionamento entre eles. Começara a tocar piano, enquanto ainda arrumava a biblioteca. Durante as noites e madrugadas, ouvia a mesma música que tocava no piano soar pelos acordes do violino. Ele a respondia, a insentivava. O começo fora difícil, mas acreditava estar progredindo diáriamente com seus estudos autodidatas. Depois da terceira semana de tentativas, encontrou sobre o piano uma partitura de musicas mais fáceis, para seu treino inicial. Sentiu-se emocionada, fora alí que pudera confirmar que havia uma sintonia entre ambos.
Durante as noites, ela o respeitava. Jantava e subia para o seu quarto, esperando o começo do soar da música. Na quinta semana, começou a limpar as escadarias e o grande salão, o que não fora muito difícil já que haviam poucos móveis e tapetes. Quando o trabalho fora findado, decidira agraciar seu anfitrião com velas, que percorriam o salão e as escadarias. As vezes fitava o lugar antes de se deitar, elevada em seus pensamentos, flagrando-se em sonhos com o tal anjo. Ela em seus braços, ao som do violino que aprendera a amar, dançando com este. Não sabia se era carência ou desespero, mas considerava-se sériamente comprometida com o dono daquele castelo. Em meio à aqueles pensamentos sorria enquanto limpava o jardim, arrancando alguns capins, quando foi surpreendida com uma voz.

- Veja só, ele a acolheu... - Assustada, ela se pôs em pé e fitou o homem. De prontidão o reconheceu, era o homem que lhe deixou alí na fatídica noite que chegara ao castelo. Fez uma mesura desajeitava, jamais soubera se portar com as pessoas da sociedade.

- Boa tarde, senhor. - Sorriu de maneira polida, sem saber o que esperar dele. Ele fitou as vestimentas pequenas e apertadas em Madelyn e sorriu, de maneira afetada.

- Vim ver o seu anfitrião... Sabe onde posso encontrá-lo?

- Oh, sinto muito, eu... Não sei.

- Bem imaginei, não convive com ele. *Ajeitou a cartola na cabeça e deu de ombros, dando-lhe as costas e seguindo na direção de dentro do castelo. - Não me siga, senhorita.

- Não iria seguí-lo mesmo! - Disse num tom alto e então recebeu um olhar de censura vindo de Lilly, o que a fez sentir mais raiva ainda. Sabia que não devia se portar assim, mas não conseguia aguentar homens como aquele, como Gerard e Antoine.
A tarde se passou, e aos poucos a curiosidade de Madelym foi sufocada. Terminou mais uma parte do jardim e limpou a ante-sala, a parte de baixo do castelo já estava completamente limpa. Seus próximos passos eram trocar as cortinas e... Bem, deveria parar de fazer planos. Não sabia até quando sua estada alí seria permitida. Triste com aquela idéia, ela banhou-se rapidamente e trocou de roupa, seguindo para a cozinha e jantando sozinha. Após isso, iluminou todo o andar de baixo do castelo com as velas e seguiu para a biblioteca, iniciando novamente seus estudos.

Quando estava tocando a quase uma hora, iniciou o canto. Em questão de minutos, sentiu um olhar a tocando com atrevimento e se voltou para a porta, flagrando o tal homem que vira mais cedo. Forçou um sorriso e se pôs em pé, fazendo uma mesura.

- Findou seus negócios, senhor?

- Sim. Mas não queria interromper sua música, estava agradável de se ouvir.

- Eu já estava terminando.

- É a música favorita dele, não? - Se aproximou do piano, deslisando a mão sobre a superfície de madeira polida.

- Não sei. Eu gosto dela e sinto que ele gosta também. - Fitou o rapaz e naquele momento sentiu um olhar mais suave vindo da direção do mesmo. Ele sorriu e então se afastou, lhe dando as costas novamente. Parecia tomado pelo escárnio, pela revolta.

- Boa noite, senhorita. Aproveite o quanto pode. Sabe como é, rei morto...- Calou-se, saindo da biblioteca enquanto deixava Madelyn assustada. Rei morto? Seu anjo estava...Doente? Sentiu um tremor tomar seu corpo, uma agonia tão grande que não sabia como agir. Nervosa, arrumou a biblioteca e seguiu para seu quarto. Em questão de minutos, estaria deitada em meio aos lençóis limpos e esperando que começasse a música. Mas ela não começou.
Durante uma semana a música não começaria, o que deixaria Madelyn realmente preocupada. Lilly agia com normalidade em sua rotina, mas sua expressão era sempre taciturna ou triste. As partituras não foram mais trocadas, Madelyn já não sabia qual música ele queria ouvir. Era como se ele houvesse sumido, como se sua presença fosse a de um fantasma, que fora tragado para a eternidade. Foi então que ao deitar-se, já acostumada com o silêncio, pode ouvir o barulho estranho de coisas sendo quebradas.

Sem perder tempo em sentir medo ou pensar demais, saltou da cama e seguiu na direção do barulho, subindo as escadarias em direção á torre. Seu coração batia mais rápido e sabia que estava próxima de encontrá-lo, encontrar seu anjo. Correu o mais rápido que o silêncio de seus passos poderia aguentar e então, ao contrário do que imaginava, o barulho vinha de um quarto e não da torre. Empurrou a porta lentamente enquanto segurava o ar preso em seu peito, tentando não fazer som algum. Não queria delatar-se, não ainda. Não sem ver seu anjo. E alí estava ele.
Costas másculas estavam viradas para Madelyn e ele chutava móveis, fazendo a madeira quebrar-se com aquele ato com facilidade, deixando clara a força que havia em seus músculos. O quarto estava virado em uma bagunça, móveis quebrados, assim como quadros e livros caídos ao chão. Por fim o homem se aproximou da varanda e se apoiou na murada, baixando a cabeça e recuperando seu ar. Madelyn tinha seu coração batendo descompassado e se aproximava lentamente, atravessando todas aquelas coisas sem fazer barulho algum. Não era uma mulher delicada, mas a vontade de se aproximar daquele homem era tão forte que parecia tomar seus pés por uma mágica. Quando se postou atrás do mesmo, estendeu sua mão na direção das costas dele e então hesitou, sem saber como agir. Era tão misterioso. Para ela, um anjo. Para os demais, um demônio.

- Vim saber se... - Ao ouvir a voz feminina, o homem se voltou rapidamente, num susto. A fitou com aqueles olhos azuis grandes e então gritou, se escondendo por entre a escuridão novamente. Madelyn não pudera ver direito a face do homem, só perdeu-se naquelas íris claras.

- Como ousa, mulher?! Como ousa invadir meu espaço?! - O homem praticamente urrava, enquanto procurava algo em meio à aquela bagunça. Foi então que surgiu da escuridão com uma máscara de madeira rústica, a fitando por buracos mal feitos que lhe davam uma aparência macabra.

- Desculpe-me, senhor. - Madelyn ergueria o queixo, decidida a mostrar-se corajosa. Todos naquela região o temiam, e com razão. Mas ela o ama...Ela o queria muito bem e iria se mostrar diferente dos demais. Sabia que sua face escondia algo, temia que fosse alguma maldição como os outros diziam. Mas tal maldição não seria permitida para alguém tão doce como ele. Sorrindo intimamente, ela o fitou nos olhos e manteve a expressão confiante. - Desejo apenas saber se está bem. Ouvi barulhos e...

- ...presumiu que alguém tivesse vindo matar o monstro, senhorita? - A voz grossa e distorcida pela máscara vinha cheia de ironia, típica ação de uma pessoa ferida. Ferida em sua alma.

- Não, senhor. Presumi que estivesse desejando trocar alguns móveis e estivesse descartando os antigos. - Tratou de assumir a tática que usava com o irmão: responderia com uma displicente ironia. Ao contrário de Gerard e surpreendendo Madelyn, o homem pareceu sorrir por trás da máscara. Ela sentiu que ele sorria.

- A senhorita está enganada. Estava apenas botando meus sentimentos para fora. - Parecia desejar assumir a calma de Madelyn naquele momento, controlando-se visívelmente. De maneira desajeitada, tentava se portar como um esguio lorde da moda, o que era difícil para um homem musculoso.

- Senti falta de sua música.

- Eu... - O homem pareceu desconcertado com aquilo, como se não soubesse à muito tempo o que era receber uma palavra gentil de alguém. Por fim seguiu na direção da porta, feito um furacão, gritando. - É melhor ir dormir, senhorita. Já invadiu demais o que não devia por uma noite!

Madelyn sorriu consigo mesma, saindo dalí rapidamente enquanto escutava os passos rudes do homem e os bruscos fechares de portas. Seguiu para seu próprio quarto e se jogou na cama, encobrindo-se e fitando o teto. Não sentia medo dele, ela era diferente dos demais. Não o temia, não queria seu mal. Sorriu consigo mesma, como se sentisse que encontrara algo que era seu naquela noite. Se sentia em casa.

- Eu ainda... - Antes que terminasse aquelas palavras, pode ouvir um som fino e distante de um violino, que parecia tão feliz quanto ela de fazer soar sua música depois de tanto tempo. Novamente sorriu e então fechou os olhos, decidida que amanhã seria diferente. Seria bem melhor.

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Por mais que custasse admitir, Alexander que tinha seu pulso acelerado naquele momento. Encostou-se na porta de seu quarto enquanto lembrava de tudo que acontecera naqueles últimos momentos. Fechou os olhos enquanto arrancava aquela máscara de madeira pavorosa de sua face. Foi então que a tomou em mãos e a fitou, lembrando que não era tão pavorosa quanto sua imagem.

- Maldição... - Murmurou, enquanto despia-se e então sentou-se na cama, com a cabeça entre as mãos. Não podia, não deveria apegar-se novamente numa mulher. Por mais doce que o olhar daquela jovem lhe soasse, por maior a bondade que apresentasse em seus atos, era uma mulher. Era como as outras.

Tereza. Aquele nome ecoou em sua mente e então Alexander praguejou, enquanto jogava seu corpo nu para trás e sentia a suave textura dos lençóis o envolvendo. Ela fora sua noiva e jurara-lhe amor eterno. Até que o viu após a trajédia. Nunca esqueceria o brilho de terror em sua face, nem o modo como o tratara depois.

Jamais esqueceria o modo como seu coração fora partido. E não deixaria que aquela estranha o fizesse novamente. Afinal, era uma desconhecida tão sem refinamento e sem modos, jamais poderia gostar de uma mulher assim, afinal...

Riu de sí mesmo, uma risada amarga. Ainda agia como se fosse o herdeiro de um título importante, como se a sociedade o amasse como antigamente. Grande erro. Julgava a pobre jovem como os outros o julgavam agora, era mesmo um homem desprezível. Mas aquela reflexão não o fazia mudar de opinião à respeito das mulheres e...

- Diabos!- Contrariando todas suas convicções e discursos para sí mesmo, Alexander viu-se na varanda, tocando uma canção no violino e esperando ardentemente que aquela fosse a trilha para o sono tranqüilo daquela estranha que entrara como um furacão em sua vida. Como uma agradável magia.