Richard viu-se sem ar, ainda sentindo o corpo de Evangeline contra o seu. Fitou a face da garota e viu lágrimas nublarem os olhos da mesma. Não que ela tivesse perdido alguém que amasse, não era efusiva e tola ao bastante por chorar a morte de um desconhecido. Mas chorava pela dor de Richard. Aos poucos ele se afastou da garota, apertando-lhe a mão forte por uma última vez e a fitando nos olhos. Sentia um aperto no peito estranho, não conseguia classificar naquele momento.
- Evangeline...
- Vá, vá se despedir de teu pai! Consolar tua irmã. - A garota, tão cheia da vitalidade da juventude, não conseguia lidar bem com a morte. Com a tristeza. Parecia sugar-lhe a alma.
- Me espere, Evangeline. - Antes de soltar a mão da jovem, apertou-a uma última vez. Evangeline sorriu entre as lágrimas, um sorriso forte e com fé no futuro, embora triste. Fez um sinal positivo com a cabeça, enquanto sentia os ombros serem envolvidos pelos braços de Tereza, que a abraçava num sinal de carinho raro naquela casa desde a partida de Alexander e da morte de sua mãe.
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O velho James fitava a expressão de Demian, que tinha os olhos fixos no oceano calmo. Havia se levantado e se debruçado no parapeito do navio, observando as águas como se alí pudesse se jogar. Aliviar sua alma, esquecer lembranças ruins.
- Ele mal imaginava que aquela seria a última vez que veria sua amada. Foi intenso o amor de ambos, por mais platônico que tivesse sido. Foi forte e marcou o coração do rapaz.
- E o rapaz, é você? - Perguntou James, cruzando os braços e o fitando de maneira calma, como se não quisesse se intrometer na vida de seu melhor homem. Demian voltou seus olhos para James, o olhando como se pudesse dizer coisas naquele olhar. Mais do que um simples sim.
- Sim, era eu. Deixei de ser Richard Winspear uma semana depois do ocorrido da morte de meu pai. - Voltou a cabeça para o oceano, respirando fundo. Havia emudecido, como se tomado novamente pelas lembranças do passado. Mas não sentia raiva, nem remorsos. Apenas lamentava.
- E o que aconteceu para que Richard perdesse sua vida?
- Naquela noite, encontrou seu pai morto no escritório dele. Havia se suicidado. Era um homem tão fraco quanto o filho, no fim das contas... Tinha falido e se envolvido em negócios de má fé, num desespero grande para salvar seu patrimônio, sua família da miséria. - Damien, se voltaria para James, voltando a caminhar por sobre as tábuas do chão do navio. Tinha os braços caídos ao lado do corpo, como se pudesse sentir algum peso sobre eles naquele momento. - Mas, como eu havia dito, era um homem bom. Ficou com um peso na consciência que sua moral jamais aguentaria e findou a própria vida.
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Richard viu-se envolvido na herança dos problemas que seu pai lhe deixara. Tivera de começar a vender o que possuíam para acabar com as dívidas, temendo pelo futuro da irmã e, por que não, o próprio. À pouco havia começado a se interessar pela vida, pelos negócios da família e agora havia perdido-se no destino, sem saber o que fazer da vida. E o pior, o que fazer com Evangeline.
Amava-a, amava-a como a própria vida. Talvez ainda mais do que a sí mesmo, e torturava-se. Não queria tirá-la de casa, de um lar onde apesar de tudo, tinha confortos. Ele, aos poucos, via o patrimônio escorrendo pelos seus dedos feito areia em uma ampulheta, e o pior, recebia ameaças daqueles que seu pai havia se envolvido no ápice de seu desespero.
- Richard? - Abriu os olhos e fitou Vivian, que adentrava na biblioteca de maneira hesitante, trajando luto. Voltou-se para a irmã, que o observava com temor e ao mesmo tempo carinho. Pobre Vivian, seu destino seria triste caso realmente não se casasse com John. A certeza daquele matrimônio que acalmava Richard, temia apenas por sí só e pelos sonhos destruídos que teria.
- Sim? - Respondeu de maneira rápida, como se estivesse alerta.
- Recebi um recado, haverá uma reunião no galpão de Santa Marta esta noite. Dizem que irão quitar a dívida de papai de vez, finalmente. Poderemos ainda ficar com alguma coisa de nossa herança. - Vivian sorriu de maneira discreta, mas otimista. Via que a irmã estava mudando durante aquela situação de dor e privações. Estava amadurecendo e perdendo seus modos impetuosos.
- Bom... - Levantou-se, vestindo o paletó rapidamente, sorrindo para Vivian. - ...se isso for verdade, quem sabe possamos ainda sonhar em continuar com Longburn. Alugamo-a até quitarmos o que nos resta e então ainda poderá casar-se no nosso salão. - Se aproximou da irmã e beijou-lhe a testa, em seguida recebendo um abraço inesperado da mesma. Toda aquela dor havia unido ambos, irmãos que sempre foram distantes. Richard deixou a biblioteca e, em sua inocência, também nunca imaginou que o que viria a acontecer o separaria para sempre de sua irmã.
Chegou rapidamente ao Galpão de Santa Marta, onde encontrou um grande grupo de trabalhadores e alguns conhecidos. Subiu as grandes escadarias e chegou no escritório, onde estava sendo esperado. No meio do caminho, sentiu um toque forte em seu braço e encontrou a figura de Alexander Dragear, irmão mais velho de Evangeline.
- Dragear. - Apertou-lhe a mão com força, já que conhecia a fama do homem. Ele havia mudado, trajando-se de maneira requintada. Mas a força e os modos rudes ainda eram visíveis em sua figura máscula. Ao contrário do que muitos imaginavam ao ver sua imagem intimidadora, Alexander era um homem sensível e amigável. Comprimentou Richard com um sorriso satisfeito.
- Quero que saiba apenas que sei de suas intenções com minha irmã. Também sei de sua situação financeira e cheguei a desaprovar o casamento. Mas...Mas isso foi até eu ver os olhos de Evangeline. Ela a ama, Therton, e espero que faça o que puder para merecê-la. - Dizendo aquelas palavras, adentrou no escritório e deixou Richard estupefato. Depois de alguns segundos, adentrou pela mesma porta e encontrou dois homens, eram irmãos e pareciam tão surpresos da vida de Alexander e de Richard quanto ele mesmo.
O tempo se passou e ninguém em especial chegava. O motivo de qual os quatro foram chamados foram diferentes e todos começavam a desconfiar. Passou-se meia hora do horário combinado e então Alexander, já impaciente, decidiu deixar o lugar. Foi então que, alheios à tudo, ouviram uma grande gritaria.
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- Consegue imaginar o inferno, James? - Perguntou Damien, à queima roupa para o velho, que por sua vez o observava com os olhos levemente arregalados, sem perder nenhuma informação.
- Só o que minha mãe me dizia. - Deu de ombros, sem entender. Damien engoliu seco e caminhou na direção do velho, baixando o tom de sua voz.
- Pois eu sei como é e lhe direi. - Colocou as mãos nos bolsos e estranhamente suas íris se tornaram mais negras, fazendo o velho sentir aquele temor primitivo e sem explicação que tinha pelo homem. Como se aquele à sua frente pudesse mostrar sua verdadeira face. - O inferno é um grande galpão de madeira tomado pelo fogo. Chamas que percorrem as paredes, o teto caindo sobre pessoas, fazendo que estas perdessem suas vidas. Gritos de desespero, pedindo por um socorro que jamais viria. Pedindo por clemência de um senhor impiedoso, que não terminaria com aquela tortura. Vidas tendo seu fim, em frente aos seus olhos, com as piores mortes imagináveis, acompanhadas pelo calor daquele caldeirão infame e mortal. E o pior... - O velho segurava a respiração, fitando os olhos daquele homem, que parou em sua frente e então respirou fundo, de maneira discreta. -... não saber se seu fim será o mesmo daquela gente. Saber que para salvar sua vida, poderá findar com a de outros. Imaginar que perderá tudo que ama.
- E... Como sabe disso? - Perguntou James, num murmurar lento e hesitante. Demian sorriu, um sorriso cheio de raiva e amargura.
- Eu estive no inferno, velho. E o inferno, naquela noite, foi no Galpão de Santa Marta. - Se afastou de James, novamente seguindo até a borda do navio, fitando o mar como se aquilo pudesse acalmá-lo.
- E como está vivo aqui? - O velho pirata não conseguiu conter a curiosidade, observando o outro de maneira discreta, coçando a própria barba branca. Demian ficou um tempo calado, perdido em pensamentos, mas logo continuou.
- O fato é que no meio do inferno, um anjo corajoso e petulante veio salvar minha alma. A mim e a Alexander, um anjo pequenino e de cabelos negros, impetuoso. Um anjo chamado...
- ...Evangeline? - Completou o velho, sorrindo. Já gostava da garota, mesmo sem conhecê-la. Demian sorriu, um dos seus raros sorrisos despojados, fazendo um sinal positivo com a cabeça ainda com os olhos fixos nas águas do oceano.
- Sim. Até hoje não sei como ela conseguiu salvar a mim e a Alexander. Ninguém sabe como ela descobriu também que fomos parar naquela emboscada. Quando dei por mim, fui buscar informações sobre Evangeline, estava com uma grande sede de vida. De viver com ela. - Acabou engolindo seco, respirando fundo e ainda fitando o mar. James esperou pacientemente que o companheiro continuasse, o que aconteceu.
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Richard sentiu um gosto azedo na língua, como se já não sentisse o sabor puro da água em seu paladar. Abriu os olhos e fitou um teto branco, iluminado precariamente pelas luzes das velas. Era noite. Com o pouco da força que possuía, entreabriu os lábios e tentou chamar por alguém. Foi então que sentiu um toque em sua testa e um leve erguer de sua cabeça e logo um copo com água foi guiado até sua boca, onde pode aliviar sua sede. Ergueu os olhos e fitou uma mulher de cabelos castanhos, presos num coque. Vestia-se com simplicidade e ao mesmo tempo sobriedade, que contrastava com o olhar paciente que tinha em seus olhos verdes.
- Acalme-se, senhor. Passou por maus bocados...- Um sorriso polido tomou os lábios da mulher, que novamente sentou-se ao seu lado, como se estivesse em vigília. Richard engoliu seco e então a fitou, falando com a voz rouca.
- O que aconteceu?
- Sobreviveu ao incêndio de Santa Marta, senhor. - O informava de maneira distante, mas ao mesmo tempo o fitava com uma curiosidade estranha. - Esteve dormindo por praticamente duas semanas, senhor.
- Duas semanas?! Mas... O que diabos...?- Tentava-se se erguer da cama e a mulher rapidamente o segurou, sem parecer surpresa com a reação.
- Acalme-se, senhor. Não pode se exaltar.
- Quero saber o que está acontecendo! - Gritou, exaltado. A mulher o empurrou contra a cama e o fitou de maneira séria, ainda o segurando.
- Se portar-se bem, lhe responderei. - Imediatamente Richard a obedeceu, fitando-a se afastar e novamente sentar-se ao seu lado.
- E então? - Insistiu, ao ver o silêncio da mulher. Ela arqueou as sobrencelhas e colocou as mãos por sobre o colo, calma.
- Foi salvo por Evangeline Dragear, que pode salvar o irmão Alexander. Infelizmente, está sendo indiciado pelo atentado ao Galpão de Santa Marta. O acusam. - A mulher não fazia rodeios, ia direto ao ponto, sem parecer ter muito tato para dar notícias ao enfermo. Ainda desnorteado com tudo aquilo, preparava-se para dizer em voz alta as milhares de perguntas que o atormentavam, mas algo em seu coração o fez sentir uma aflição grande, fazendo apenas uma pergunta para a suposta enfermeira.
- E como está Evangeline? - Engoliu seco, segurando a respiração. A enfermeira desviou o olhar, fitando do chão e apertão as mãos uma contra a outra de maneira forte. Por fim voltou a fitá-lo, como se soubesse que não haveria como fugir da curiosidade selvagem daquele homem.
- Ela está morta. Morreu no incêndio.