terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Capt 4 - Castelo dos Sonhos

Fitou-se no espelho, sem muito ânimo. Talvez seu pai estivesse certo, o melhor seria casar-se com o coronel e esquecer aqueles sonhos romanticos, pensou Pepe.

- Talvez não devesse ir, menina. - Resmungou Zira, que trazia o vestido da jovem passado, pronto para a festividade local. A criada já estava pronta, o casamento do capataz do Coronel iria reunir gente de toda a região, de todas as classes sociais. Uma grande mistura, pensava a criada.

- Não vou viver me escondendo, Zira. - Disse Penélope, enquanto voltava-se para a criada e tomava o vestido lilás entre as mãos, voltando-se para o espelho e fitando-o de frente ao corpo. - Queria tanto ser como mamãe. Podia vestir um saco de batatas e ficava linda.

- Sua mãe era linda pois não vestia sacos de batatas. E nem os carregava como nós, menina. - A criada como sempre parecia ter sempre algo na ponta da língua para falar mal da sua ex-patroa.

- Ai Zira, só você mesmo! - Rindo, a moça se aproximou da criada e a beijou na face. A mulher saiu dalí, acanhada e fingindo-se nervosa com a ação, mas aqueles seus modos rudes não enganavam ninguém.

Penélope vestiu-se, sentando-se em frente a penteadeira enquanto escovava o cabelo lentamente, com os olhos fixos na própria imagem, mas a mente longe dalí. Não conseguia se esquecer da noite anterior, imaginava como pudera ir do céu ao inferno em tão poucos segundos. Ela fora. Mas, tentava ser positiva. Ao menos agora já não se iludiria mais, sabia que Pedro jamais a veria como mulher. Suspirou, dando de ombros, enquanto aplicava um pouco de maquiagem sobre a face. Não desejava ir mal arrumada na festa, queria ir ao menos sentindo-se bela. Sabia que Carolina estaria lá, não desejava sentir-se assim tão derrotada.

Saiu do quarto decidida a deixar alí aqueles pensamentos tristes, aproveitando aquela noite. Haviam poucas ocasiões de lazer para ela, não iria jogar aquela noite fora por causa de alguém que sequer sabia que existia. Sim, tentaria ao menos fingir que tinha o coração vazio, pronto para um novo amor. Sabia que estava se enganando, se iludindo... Mas isso seria algo assim tão ruim?

- Está linda, flor! - Exageradamente gesticulou seu pai, sentado sobre sua cadeira de balanço. Não iria à festa, não tinha gosto por comemorações do tipo. Pepe deu uma voltinha, sorrindo. Enquanto isso seu irmão, muito bem vestido em seus "trajes de domingo", a tomou pelo braço e ambos partiram em direção à propriedade do coronel, na carroça do irmão. Enquanto sacolejavam pela estradinha de terra, o irmão resmungou.

- Quando se casar com o coronel, vai andar no único carro da região. Não vai ficar dependendo da boa vontade dos cavalos, nem sentindo esse cheiro de...

- Não me incomodo com isso, Antônio. Gosto muito de andar de carroça, se quer mesmo saber. - Fitou-o de soslaio, achando graça da irritação do irmão. A discussão logo acabou quando ambos viram as luzes ao horizonte e a música animada que anunciava o começo do casamento. O sol estava se pondo, deixando o céu alaranjado. Penélope suspirou, deixando sua alma romantica deliciar-se com aquela cena.

===...===

- Não vai sair do meu pé, não? - Reclamou Carolina, ao lado de Pedro. Ambos estavam sendados nos bancos de madeira improvisados no campo, enquanto esperavam o casamento começar. A cabocla voltou a cabeça para trás, observando as pessoas que chegavam, procurando por Maurício.

- Está se iludindo, idiota. - Murmurou Pedro, impassível. Parecia ter já perdido sua paciência com ela.

- Iludindo? Por que diz isso? - Os olhos castanhos da moça se fixaram no homem, levemente cerrados pela desconfiança das palavras do mesmo. Pedro a fitou de soslaio, com a sombra de um sorriso nos lábios.

- Abra os olhos.

- Ah, fica quieto! Você não sabe de nada, nunca vai saber de nada. É um pobretão, mal amado. - A moça se ergueu, fitando-o nos olhos, com as íris ardendo feito chamas de ódio. - Se quer mesmo saber, logo vou estar casada com o homem mais lindo e rico dessa região. E você vai continuar aí, babando por mim.

Pedro agarrou o pulso de Carolina com força, fitando-a nos olhos e mostrando um olhar intenso, com a mesma raiva que esta depositara nele momentos antes. Como podia desejar tanto beijar aqueles lábios impetuosos e ao mesmo tempo esganar aquele pescoço delicado? Pedro perdia a cabeça perto de Carolina, não tinha controle algum de sí mesmo, só tinha noção do poder daquela caboclinha sobre sí. Por fim a soltou, quando viu que iria machucar seu pulso com sua força. A moça partiu sem fitá-lo novamente, seguindo na direção de Mauricio. O filho do coronel rapidamente foi recebido por todas as jovens casadouras da região, batalhando por um pouco de sua atenção. Mas, ao longe, havia uma figura que sequer dava atenção ao jovem. Uma figura vestida em lilás, caminhando sobre o campo, envolta pelo por do sol. Pedro não imaginava, mas não era o único espantado com aquela visão tão doce.

===...===

Fitou-se no espelho, aprovando a própria imagem. Sorriu, como se sorrisse para alguma jovem que desejava prolongar a festividade noturna. Rindo, saiu de seu quarto com passos decididos e cheios de entusiasmo. Primeiramente não havia gostado da idéia do pai dar aquela festa ao pobre criado, presenteá-lo daquela maneira absurda. Mas tudo mudara, agora que sabia da existência de tantas moças naquela região. E todas estariam naquela festa, todas até mesmo...

- Mas que inferno! - Praguejou alto, enquanto colocava as mãos nos bolsos e caminhava na direção da festa, onde seu pai o esperava. A cerimonia jamais começaria sem o herdeiro do coronel. - Só pode ser algum feitiço, não posso ter me impressionado assim com uma mulher tão sem atrativos.

Acabou por chutar um pedaço de madeira que havia ao chão, irritado. Então parou, fitando o céu e respirando fundo, em seguida fechando os olhos. Ordenou à sí mesmo parar de pensar em Penélope. Era a pretendente de seu pai, e pior que isso, não parecia ver nenhum dos encantos de Maurício. Por fim forçou-se em pensar na bela Carolina, que certamente o esperava naquela noite para continuar o que haviam começado antes. Sim, depois da festa sentiria o doce gosto daquela caboclinha, a possuiria do jeito que sempre quisera desde que a vira quando retornara da cidade, um mês antes.

E foi com aquele pensamento em mente que adentrara à "festa", sendo recebido primeiramente pela filha do Coronel Astuto, uma jovem loirinha de olhar tímido e palavras afetadas, que parecia devorá-lo com os olhos. Em poucos minutos, estaria literalmente cercado por mulheres de todas as classes, cores...Até mesmo algumas senhoras casadas lhe enviavam olhares provocativos, o que fez Maurício sorrir consigo mesmo. Sua fama de conquistador era enorme, algumas desejavam apenas passar uma noite em seus braços. E era o que ele também tanto desejava, o que era um acordo muito proveitoso ao jovem herdeiro.

- Esses caboclos, são tão sem porte... - Disse uma jovem que Mauricio havia esquecido o nome, mas sabia direito o formato dos pequeninos seios sobre o corpete. Desviou os olhos na direção que a moça olhava e fitou Carolina, que parecia discutir com Pedro. Aquele caboclo irritante! Atrapalhou sua noite com a jovem e ainda o complicou com Penélope, que agora o julgava um patife.

- Todos temos nossos defeitos, senhorita. E nossos pontos fortes. - Sorriu, dizendo aquelas palavras sem pensar muito, só desejando dizê-las para rapidamente sorrir de maneira sedutora para aquela garota. A moça tinha as faces rubras e mordiscava o lábio inferior de leve, o encarando. Encarar era o que Carolina também fazia, seguindo em sua direção e parando ao longe, fitando-o daquela maneira cheia de fome, de desejo. Sentiu um calor tomar seu corpo, fitando-a de maneira intensa, desviando o olhar rapidamente. Se comunicavam com olhares, a atração entre ambos era extremamente forte.

Quando deu por sí, Mauricio era o centro das atenções femininas. Vestidos coloridos o cercavam, perfumes doces, laços e lábios pintados com carmim. Os homens o fitavam apreensivos, em seus ternos escuros e respeitáveis. Quando toda aquela atenção já começava a o deixar enfadonho, voltou a face para o horizonte onde viu uma sinueta feminina envolta por um vestido lilás caminhando na direção da festa.O por do sol parecia ser um cenário feito só para aquele anjo, que caminhava sobre o campo verdejante.

Seu coração pareceu bater mais forte, as palmas das mãos ficaram suadas, sabia quem era. Era Penélope. Preparou seu sorriso mais encantador quando esta passou pelas proximidades de seu grupo de companhias femininas, mas ficou sem receber sequer um olhar. A jovem acompanhava o irmão e seguira para as poltronas de madeira, deixando Mauricio seguí-la com o olhar, com uma expressão totalmente perdida e confusa. Triste.

==== ... ====

- Não vai dançar, Antônio? - Perguntou Pepe, ao ver o irmão que trocava olhares com uma jovem, mas não tomava nenhuma atitute. O rapaz por sua vez a fitou com espanto, sorrindo sem graça.

- Não a deixarei sozinha aqui, minha irmã.

- Ah, não seja tolo! Vá se divertir, não vê que o coronel está acanhado ao me ver ao seu lado? - Imitou um tom dramático que arrancou uma risada do irmão, que lhe deu um beijo na face e seguiu na direção daquela moça com quem flertava com o olhar.

Penélope fitou o novo casal com uma expressão suave, talvez admitisse para sí mesma uma pontada de inveja. Mas não tinha vergonha daquilo, qual era o mal de desejar ser amada, ter carinho? Baixando os olhos, deslisou a mão sobre o braço e fitou o chão, controlando-se. A noite toda teve de se remediar para não buscar Pedro com o olhar, no meio daquelas pessoas. Sabia que era muito mais do que aquela obsessão. Com aqueles pensamentos tomando-a por completo, as pessoas ao seu redor eram pouco mais que vultos, as músicas um som abafado. Distante. Mal notou a proximidade do Coronel, que vinha em sua direção fitando-a como um caçador fita a presa.

- Sozinha, professora? - Tentou puxar assunto, sorrindo por trás dos bigodes brancos.

- Hum? - Penélope assustou-se, fitando-o um tanto desnorteada.

- Perguntava-me como uma jovem tão bela está aqui, parada. Não gosta de dançar? - Sorriu novamente, fazendo Penélope engolir seco, temendo que o mesmo fosse pedir uma dança. Não queria dançar com ele, não queria dar nenhuma margem de comentários para aquela gente, que só de ver a professora com o coronel já começavam a inventar milhares de histórias.

- Gosto sim, mas... - Segurou o ar, enquanto tentava maquinar uma desculpa, fitando as pessoas em evidente pânico. Seu olhar se fixou em Mauricio, que a fitava enquanto dançava com a filha do coronel Astuto. Parecia surpreso com sua atenção e prontamente largou a moça, seguindo em sua direção. Pepe engoliu seco, imaginando que aquele rapaz - por mais que fosse detestável - pudesse salvá-la daquela situação embaraçosa. Com um sorriso nos lábios ele se aproximou do pai e da professora, parecendo decidido em tomá-la para uma dança.

- Mas...? - Insistiu o coronel, notando que a resposta demorava demais. Mauricio já estendia a mão na direção da jovem, recebendo um olhar estupefato do próprio pai.

- ...mas ela já havia prometido essa dança para mim, coronel. - A voz de Pedro soou, fazendo com que dois pares de olhos o fitassem com surpresa. Penélope ficou sem ar, surpresa com aquela situação. Feito uma pessoa hipnotizada, teve a mão tomada pelo rude capataz e seguiu para a improvisada pista de dança, onde as pessoas dançavam ao som daquela viola caipira. Estranhamente, não conseguia fitá-lo nos olhos, tendo a pele clara coberta por um rubor intenso.

- A moça parece estar cabreira com algo. - Disse Pedro, que também parecia sem jeio com aquela situação. A professora ergueu sua cabeça e fitou-o nos olhos, sorrindo de maneira desastrada.

- Obrigada, Pedro. Me salvou de uma situação realmente embaraçosa com o coronel. Se quiser ir dançar com alguma moça que prefira, esteja à vontade...

- Ora, eu estou dançando com a moça que prefiro. - O caboclo falou rapidamente, fazendo com que Penélope o fitasse nos olhos, surpresa. Um suave tremor subiu sobre sua espinha, sentia um calor que queimava sua pele onde Pedro a tocava, estava sem ar. A reação da professora, para aqueles que davam devida atenção ao casal, era notável. A simplória professora de Pequenos Montes era apaixonada pelo caboclo.

====...====

Carolina se aproximou de Mauricio sorrateiramente, quando este finalmente estava sozinho. Parecia ter discutido com seu pai e agora tinha os olhos fixos na pista de dança. com uma expressão de poucos amigos. A moça sorriu consigo mesma, ele era lindo até bravo! E sabia bem como tirar-lhe toda aquela tensão, sabia sim. Postou-se atrás do rapaz sem que esse a visse, murmurando ao seus ouvidos.

- Está com tanta vontade de dançar assim?

- Não. - Respondeu firmemente Mauricio, que sequer desviou o olhar para fitá-la. Carolina então ficou ao seu lado, seguindo a linha do olhar do mesmo. Entrou em delírio quando viu que ele fitava Pedro, dançando com aquela professorazinha estranha. Sim, a mesma que interrompeu sua noite de amor. Logo acreditou que Mauricio estava tomado de raiva por Pedro, que a levara consigo na noite anterior.

- Não fique assim, meu amor. Eu estou aqui, não estou lá com Pedro.

- Do que está falando?! - Perguntou Mauricio exaltado, parecendo já sem paciência com a jovem. Carolina ficou um tanto quando sem jeito, mas continuou.

- Do seu olhar de ódio para Pedro. Está com ciúmes.

- Diabos! É tão evidente assim? - Pela primeira vez Mauricio a fitava, parecendo ainda muito nervoso com aquela situação toda.

- Claro, eu te conheço bem. - Carolina não conseguia conter sua satisfação com os ciúmes do rapaz. Sempre fora insegura quanto aos sentimentos do herdeiro do coronel, afinal... Tantas jovens lindas e ricas o cortejavam, mas agora sabia que era dela que ele tinha ciúmes. Dela!

- Inferno. - Murmurou o rapaz, saindo dalí de supertão e seguindo na direção da própria casa, parecendo realmente irritado. Todos comentavam, afinal qual era o motivo de toda aquela raiva do jovem rapaz? Carolina, por sua vez riu consigo mesma. Ele a amava, confirmara que estava com ciúmes. Ciúmes que o deixavam fora de sí!

===...===

Quando viu o filho do coronel partir daquela maneira depois de conversar com Carolina, Pedro teve a confirmação do que imaginava. Juntara todas as peças daquele quebra cabeças, desde que o ouvira praguejar aquela manhã próximo da escola, ou a maneira tão sem graça que se portara na noite anterior no celeiro. Jamais vira o filho do coronel tão perdido, sem ação próximo de alguém. Estava encantado com a professora, mas... Até Pedro estava, ou não? Respirando fundo, ouviu a música acabar com uma pontada de tristesa no peito, enquanto levava a moça para fora da pista juntamente com os outros casais.

- Bom, eu acho que vou para casa. - Sorriu a professora, enquanto procurava com os olhos o irmão. Pedro seguiu sua linha de olhar e riu.

- Acho que seu irmão não quer ir ainda, professora.

- Oh, realmente... Mas estou muito cansada, acho que irei sozinha. - Voltou a fitar o caboclo, tentando domar seu coração impulsivo. Com aquela pouca atenção que recebera, parecia novamente sentir aquela tão odiosa esperança que a envolvia como braços de um polvo, parecia que jamais conseguiria deixar de pensar naquela maneira. Penélope jamais conseguira domar seus desejos, sentimentos. Sempre tivera a emoção dominando sua razão.

- A professora jamais desataria um amor, não é? - O jeito simplório de falar do caboclo tomava por completo a atenção da moça, que achava aquelas palavras encantadoras.

- É verdade, Pedro. Sou uma romantica incurável... - Inconscientemente, suspirou. Quando deu por sí, o caboclo lhe estendeu o braço, num sinal para que se encaixasse alí.
- Então, eu a levarei para casa, Srta. Penélope. - Sorrindo, ele parecia mais irresistível ainda. Tão tomada estava por aquela alegria que mal notou a criada Zira, que surgia correndo feito desesperada em sua direção.