Madelyn voltou seus olhos para Thomas, um homem de aparência desleixada e poucos cabelos e em seguida a Antoine. Este, por sua vez, era a imagem do requinte. Seu exagero com os cuidados com a imagem faziam-no parecer até mesmo um tanto quanto afeminado. Mas aprendera com Gerard que não poderia jamais julgar alguém pela aparência. Quem conhecia seu irmão, à primeira vista, o achava um homem delicado e bem apanhado, agradável de se conviver. Grande ilusão.
- Que erro, mademoiselle... Ouvir a conversa dos outros. - Sorriu Antoine, que se aproximou e deslisou o dedo por sobre a volta da face de Madelyn. Ela engoliu seco, parecia que sua vida ficava pior a cada segundo. Thomas a puxou com força pelos cabelos e ela gritou, sendo calada pela mão suja do mesmo.
- Cala-te, vagabunda! Cometeu mesmo um grande erro, e agora terás que pagar. - A jogou no chão, desembainhando sua pistola e apontando para Madelyn. Ela fechou os olhos e começou a fazer uma prece rápida, desastrosa e cheia de arrependimentos e dúvidas. Foi então que a porta se abriu, e uma voz masculina disse de maneira exaltada.
- Ralph está aqui! Está vindo para cá! Veio com ordens de Alexander! - O homem saiu dalí, deixando a porta aberta. Antoine, por sua vez, saiu rapidamente dalí. Madelyn abriu os olhos e fitou Thomas, que parecia realmente temer o tal Alexander. Sua testa suava e seus finos e escassos cabelos colavam às têmporas. Aproveitando o temor do homem, Madelyn chutou-lhe a virilha, aproveitando que estava caída ao chão, e enquanto o ouvia praguejar ergueu-se e saiu correndo, sem antes levar um tiro de raspão no tornozelo.
A exaltação alí era geral, mas Madelyn não temia o tal Alexander como os demais. Sequer sabia quem era, afinal. Respirando fundo, continuou a correr de modo exasperado, deixando de lado aqueles pensamentos e tentanto suportar a dor que sentia. A camisola branca havia sido maculada pelo sangue rubro, que "subia" pelo tecido como uma praga. Madelyn já estava se cansando, quando ouviu a voz do irmão.
- Ao diabos, Ralph, ele não é Alexander! Encontrem Madelyn já!
Estava suada e ferida, não tinha mais forças. Mas naquele momento, teve de tirá-la de suas entranhas. E foi assim que, desviando de muitos criados e fugindo de homens que a perseguiam, conseguiu sair do casarão pulando de uma janela. Acabara por torcer o pé no salto e teve de sufocar seu grito de dor. Sua visão estava turva pelas lágrimas e pela dor, praticamente não conseguia se mover.
- Alí está ela! - Gritou uma criada da janela. Madelyn respirou fundo, tentando-se erguer.
- Meu Deus, me ajude! Pai, de onde estiver, me ajude por favor! - Disse em meio ao seu desespero. Sabia que seu destino seria triste e findaria numa morte vã, naquela mesma noite.
Fitou a lua que iluminava o castelo, e em especial aquela torre tão macabra. Foi então que ouviu a aproximação de um valete de uma carruagem. Sem saber como se portar ou raciocinar, seguiu seu coração. O mais rápido que pode adentrou na porta contrária da carruagem, praticamente desabando no banco de veludo vermelho vinho. Se jogou no "chão" que havia entre os bancos, ouvindo a voz dos valetes ao longe. Tudo parecia uma trilha macabra de sua dor e de seu medo. Sua visão estava turva, não conseguia mais entender as imagens ao seu redor, só sentia um cheiro de tabaco forte e o tato do veludo macio.
- Vamos sair daqui, Bartolomeu. - Disse uma voz máscula firme, um tanto quanto nervosa. A porta fora aberta de supetão e o homem adentrou, ainda fitando o casarão. Madelyn viu o corpo alto envolto em roupas requintadas, sua visão era borrada. Tremeu. Sentiu a carruagem se mover a apertou com força o veludo vermelho entre os dedos, não sabia com quem estava partindo.
Foi então que a cabeça do homem se moveu e ela pode sentir a força daquele olhar em seu corpo, mesmo sem conseguir vê-lo. Ele apertou com força a mão de contra a janela, gritando.
- Parem a carroagem! - Sua voz era grossa e tão máscula que fazia Madelyn sentir calafrios, temê-lo ainda mais. Sentiu a carruagem parar e a gritaria do valete. O desespero começou a tomá-la novamente e de seus olhos, lágrimas desesperadas surgiram. Se aproximou do homem, por mais que o temesse, tocando suas pernas e o fitando.
- Por favor, senhor! Não deixe que me levem, não deixe que me encontrem!
- Não, sairás daqui agora! Já! Não quero problemas! - A porta foi aberta e Madelyn sentiu o vento frio da noite a chamando e, naquele momento, abraçou as pernas do desconhecido e caiu em pranto desesperado.
- Então me mate, me mate senhor! Mas não deixe que eles me encontrem... - Sua atitude servil surpreendeu até a sí mesma, mas não queria voltar para aquele casarão. Não queria voltar para Gerard e pela morte pela pistola de Thomas e Antoine.
Um momento de silêncio se passou e ela então pode ouvir uma conversa distante entre o valete e o tal homem sem face. Ela tentou controlar as lágrimas naquele momento, erguendo-se do chão de maneira desastrada, como um bebê que aprendia a andar.
- Ela deve ter entrado aí quando estávamos na propriedade de Gerard Therton, senhor.
- Isto é óbvio! Mas... - Foi então que ouviu o barulho de patas de cavalos, certamente estavam vindo pelo menos duas carruagens na direção deles. O homem fitou Madelyn, que suplicou em silêncio uma última vez. Foi então que ele adentrou na carruagem e disse num tom alto.
- Vamos, vamos rápido para casa! - Madelyn pode fitar apenas dois castanhos claros fixados nela, extremamente desgosotos. Naquele momento pode fitar com calma a face do homem. Era jovem, de aproximados 25 anos e uma expressão temerosa na face. Sentiu-se grata por este.
A carruagem voltou a correr e ela sorriu para o rapaz, que não a correspondeu. Fazia-a lembrar Antoine, com suas maneiras afetadas. Não sabia o quanto percorreram, só ouvia o praguejar nervoso do jovem e pode notar que este também temia pelas conseqüências daquilo. Foi então que ele a fitou e sorriu, um sorriso confiante e tolo, que a fez temer pela idéia que evidentemente ele teve.
- Bartolomeu, mudança de planos! Vamos para Wildenthorn. - Riu baixinho e então fitou Madelyn, enquanto deslisava as mãos pelas pernas, como se limpando.
- Minha cara, eu lhe dei apenas uma carona. A partir dalí, deverás lutar por sí mesma. - Piscou com um dos olhos e Madelyn sentiu a virada da carruagem brusca e notou que adentravam numa floresta. O jovem rapaz batia o pé contra o chão da carroagem, enquanto fitava a janela como se temesse que estivessem sendo seguidos. Em seguida praguejou novamente, fitando de soslaio Madelyn.
Foi então que ela ouviu o barulho de um portão de ferro abrindo de maneira brusca, e em seguida a carruagem parando. A porta trás de sí fora aberta e dois homens a puxaram para fora, deixando-a no chão e rapidamente assumindo seus postos. Pela janela da carruagem, viu a face do jovem que lhe sorriu de maneira polida e aliviada.
- Tua vida é somente por sua conta agora, milady. Estou em paz. - Fechou a porta e a carruagem saiu dalí rapidamente, deixando Madelyn entre os grandes portões de ferro. Trêmula, ela tenteu erguer-se e descobriu que aparentemente estava numa propriedade abandonada. Ótimo. Apoiando-se numa árvore, fitou o lugar onde estava e ao longe pode deslumbrar a proximidade do castelo que tanto admirava da prisão.
Sorriu, enfim um deleite em meio a tanta sofridão. Encontrou um pedaço de pau no chão e o usou como apoio, caminhando na direção do castelo. O caminho era longo e a cada passo que dava, sentia suas forças se esvaírem ainda mais. Foi então que pode adentrar no jardim que antecipava o castelo, este descuidado e parecendo um lugar macabro, um castelo de uma bruxa má dos livros que lia. Riu, apesar da situação tão imprópria.
- Alguém aqui? - Gritou, com o máximo de força que podia. - Por favor, preciso de ajuda!
Nada, nenhuma resposta. Sem desistir, continuou caminhando através das plantas crescidas, tendo que afastá-las de sí a cada momento. Foi então que ouviu o barulho de patas de cavalo e voltou-se para trás, reconhecendo o vulto de duas ou três carruagens. Gerard! Thomas e Antoine! Com aquele pensamento em mente, ela começou a correr por entre as plantas, em meio à lágrimas desesperadas.
- Por Deus, alguém me ajude! Me ajude! - Desta vez gritava, em desespero. Voltou a cabeça para trás e via que os homens vinham em sua direção, numa rapidez que parecia ser uma provocação do demônio para sí. Foi então que tropessou, caindo próxima as escadarias do castelo e bateu com a cabeça contra um dos degraus, podendo apenas abrir os olhos e flagrar uma imagem borrada. Um par de olhos claros a vislumbrou, por entre uma massa negra e ela ergueu os braços débilmente.
- Oh, anjo, leve-me desta vida tão triste. Por favor, salve-m...- Sentiu a aproximação dos olhos e um toque agradável sobre seus cabelos, o toque carinhoso de um anjo. Caiu em inconsciência, sendo tragada pelos braços negros de sua dor.