Alguém estava em perigo, sabia que o valente caboclo jamais procuraria outra pessoa se não fosse este o caso. Acabou por encontrar na sala um tipo de capa, sobretudo de seu pai. Fitou-se no espelho, do outro lado da sala. Velho, desbotado e com as pontas esfarrapadas, servia-lhe e isso bastava. Seu pai e ela tinham praticamente a mesma altura, não era uma mulher de formas pequenas. Invejava-as, parecendo tão delicadas que podiam quebrar num simples toque. Ela não, era forte, alta. E sabia se alimentar bem, sem parecer ter grandes vaidades, isso não combinava com aquela região em que vivia, com seu modo de vida. Novamente lembrou-se da mãe, tão bela e charmosa. Uma flor tão frágil jamais sobreviveria naquele lugar.
- Rápido, professora! - O chamar de Pedro a tirou daquele devaneio e ao mesmo tempo fez seu coração disparar. Conteve um sorriso e saiu da casa praticamente correndo, o encontrando. Ele a recebeu com uma expressão aflita, nervosa. Tirou o chapéu e fez uma rápida mesura, fitando-a.
- Obrigado por vir, professora. Sei que é uma mulher boa, já pensei em procurá-la hoje quando... - A face do caboclo pareceu tornar-se rubra, como se este hesitasse em fazer algo.
- Diga, Pedro. - Falou suavemente, com calma, como fazia com as crianças que aprontavam alguma coisa. O caboclo a tomou pela mão, puxando-a praticamente correndo na direção de um cavalo castanho. Penélope tremeu, sentindo aquele toque quente da mão do capataz contra a sua, sentindo um calor que nascia naquele toque e tomava todo seu corpo. Quando se aproximaram do animal, Pedro voltou-se para Penélope, fitando-a enquanto segurava sua cintura para erguê-la. Foi como se este estivesse vendo aquela mulher pela primeira vez, sentindo suas ancas contra suas mãos brutas. Sentiu-a tremer e suas íris pareciam ainda maiores, enquanto via que a professora não desviava o olhar e nem se afastava de seu toque. Por fim a soltou, como se o corpo dela queimasse sua mão.
- Desculpe, professora. É a pressa! - De fato era, mas aquilo não era desculpa. A jovem forçou um sorriso, dando de ombros e montando o cavalo sozinha, mostrando o quanto independente era. Rapidamente o caboclo fez o mesmo e então partiram para aquele destino que Penélope ainda não sabia qual era. Só tinha noção do corpo do homem contra o seu, já que o segurava pela cintura.
Pedro sofria do mesmo mal, praguejando contra sí mesmo naquele momento. A simples respiração da professora contra seu pescoço parecia atordoá-lo, enquanto as formas da mesma tão disfarçadas pelo grosso casaco que vestia, transmitiam um forte calor de seu corpo. Ordenou-se tirar aqueles pensamentos da cabeça e então, quando viu o celereiro ao longe, uma forte garoa começou à cair no campo. Ao pensar em Carolina nos braços daquele rapaz, pareceu esquecer por completo que havia uma jovem consigo e correu ainda mais até chegar próximo do celeiro. Desmontou do cavalo, sentindo já a fúria da chuva que certamente seria passageira. Esperou Pepe desmontar, sequer notando a face da professora totalmente molhada.
- Uma jovem inocente está sendo tomada por um pervertor alí, professora. Preciso que me ajude a salvá-la, já que é muito respeitada e é uma mulher. E também vai ser a... - "futura esposa do pai do canalha!", pensou Pedro, sem dizer em voz alta. Já tomava a mão da professora contra a sua, correndo, sem sentir nenhum encanto que sentira poucos minutos antes.
Em questão de segundos, adentraram ao celeiro por fim. De fato, encontraram um rapaz parcialmente nu sobre uma moça, com os seios de fora. Penélope fitou Pedro, que hesitava em fazer algo, tremendo de raiva. Seu coração doeu ao vê-lo naquele estado e tomada por aquela dor, se aproximou do casal e chutou o rapaz com força, arrancando um grito da jovem que rapidamente se cobriu e fazendo-o cair para ao lado, gemendo de dor. A moça ergueu-se, pálida feito uma assombração, enquanto o moço também ergueu-se rapidamente e, quase por instinto, socou a figura que o ferira na barriga, fazendo-a cair ao chão. Caiu sobre o estranho, erguendo o punho para esmurrá-lo na face, quando seu pulso foi segurado pelo caboclo.
- Não vê que está batendo numa mulher?! - Disse Pedro, entre os dentes. Carolina fitava a cena muda, como se jamais imaginasse que a noite terminaria assim.
- Me solte! - Disse Mauricio num tom forte, ainda sem saber ao certo como agir. Perplexo, sentou-se ao lado do estranho e este conseguiu erguer-se parcialmente, tendo a face iluminada pela lua. Uma face delicada, face de mulher, com feios arranhões de quando caíra ao chão. Os olhos da mulher o fitaram por entre a escuridão, parecendo desejar matá-lo com um simples olhar.
- Não respeita mulher alguma, Mauricio? - Murmurou a jovem, então este ainda sem a reconhecer. Mas ela evidentemente o conhecia, o que estranhou. A voz soava tão doce quanto jamais ouvira naquela região. As palavras eram ditas corretamente, como se fossem planejadas dentro daquela cabeça horas antes de serem ditas. - Sinto tanta dor que seria capaz de matá-lo!
Pedro segurava Carolina, que já parecia estar em sí e fitava ambos com uma expressão de poucos amigos. Mauricio se pôs em pé, rapidamente ajudando a jovem a erguer-se, Os cabelos castanhos estavam emaranhados e sujos, com fiapos de palha entre as madeixas, tentando-o em tirá-los. A expressão da moça ainda era de poucos amigos, mas não parecia alguém do tipo que guardava rancor por muito tempo.
- Não vai dizer nada? - Disparou, enquanto passava a mão sobre o próprio casaco, tirando a palha.
- E...Eu...- Engoliu seco, jamais ficara nervoso próximo de uma mulher! - Eu sinto muito, jamais a bateria se soubesse que era uma mulher.
- Não estou falando disso, estou falando do que estava prestes à fazer com a jovem. Iria desonrá-la! - Parecia perplexa com aquela situação, o que fez Mauricio sentir uma pontada de vergonha.
- Não brigue com ele, professora! Eu queria tanto quanto o Mauricio. - Disse Carolina, que rapidamente sentiu um puxão de Pedro, que a tentava tirar de lá. O caboclo praticamente tomou Carolina nos braços e saiu dalí, deixando-a com Mauricio.
- Droga! - Murmurou, enquanto seguiu até a porta do celeiro e viu-o partir com a jovem. Naquele momento algo ficou claro para sí, algo que jamais imaginou: Pedro amava Carolina. A trouxera para lá para que esta não o odiasse ao tirá-la dos braços do homem que tanto queria, e para não brigar com o mesmo. Aquele momento mágico antes de chegar alí, foi uma ilusão. Tudo fora esquecido à mensão da existencia daquela bela cabocla na vida de Pedro.
- A senhorita está bem...? - A voz hesitante de Maurício a despertou de seus pensamentos tristes e acabou voltando-se para fitá-lo, este já vestido e seguindo na sua direção. Forçou um sorriso e fez um sinal positivo com a cabeça, desviando o olhar. Mas o jovem herdeiro do coronel pode ver o brilho das lágrimas nos olhos da jovem, que parecia uma hora dona da situação e, em outra, uma menina esquecida na chuva.
- Bem, eu vou pra casa, senhor. - Murmurou, fechando os olhos até que sentisse o ardor das lágrimas sumir de sua vista. Pedro havia a esquecido por completo.
- Nessa chuva, caminhando? - Perguntou Mauricio, perplexo. - Deixe-me levá-la, pegarei o carro de meu pai ou a carroça do...
- Não precisa, gosto de caminhar. Gosto da chuva...- Voltou a fitá-lo, com um sorriso triste. - Gosto da noite. Até mais ver, Mauricio.
Sabendo que não poderia evitar, o homem encostou-se na porta do celeiro enquanto via a jovem caminhar para casa, já sentindo a fina garoa que caía. Não sabia o que acontecera naquela noite. Não sabia se ficava feliz ou triste, se lamentava por ter perdido a chance de possuir a bela Carolina ou se sentia uma profunda alegria ao ter conhecido aquela mulher tão misteriosa. Acabou jogando-se no feno novamente, sorrindo consigo mesmo. Só sabia que se sentia estranhamente exultante.
====...====
- O que fez na cara, flor? - O pai de Penélope a fitou com desconfiança pela manhã, reconhecendo o arranhado na face delicada da filha e a expressão cansada da mesma.
- Caí durante a noite, quando fui tomar um copo de água. - A maneira que respondeu não deu margens a outros comentários, fazendo o pai e o irmão trocarem um olhar de cumplicidade. O silêncio durou um pouco alí, enquanto Penélope mantinha os olhos baixos, tristonhos.
- É hoje o casamento do Casimiro, Pepe. Você vai? - Antônio fitou a irmã do outro lado da mesa, que tomava seu desjejum antes de partir para a escola. Desejava tirar um sorriso daqueles lábios bonitos.
- Vou sim. - Respondeu simplesmente, sorrindo para o irmão. Jamais perderia a chance de ir numa festa na casa do Coronel Brás, que naquela noite festejava o casamento de um de seus capatazes. Era certo que encontraria Pedro alí, uma das poucas chances de vê-lo numa situação de entrosamento social. Apesar da dor de saber que o relacionamento de ambos era impossível, era irresistível a chance de vê-lo.
- Uma grande chance para aproximar-se do coronel, minha filha. - Intrometeu-se seu pai, arrancando-lhe o sorriso dos lábios. Essa deu de ombros, sem saber o que pensar sobre o assunto.
- Não sei o que esse velho quer comigo, existem tantas moças por aí com dinheiro. Moças finas, delicadas, bem vestidas. A filha do Coronel Astuto, por exemplo... - O irmão sorriu do outro lado da mesa, fitando-a com carinho.
- Que homem desejaria outra mulher nessa vida com você tão próxima, Pepe? - Aquele elogio inesperado a emocionou, fazendo-a estender a mão por sobre a mesa ao irmão, que a tomou. Sem poder mais aguentar aquela cena tocante, ergue-se da mesa e pediu a benção ao seu pai, partindo na direção da escola.
As palavras tão doces do irmão ainda ecoavam em sua mente, embora naquele momento trouxessem uma dor tão forte, que chegou a cogitar que era masoquista. Que homem desejaria outra mulher...? Pedro, ele desejava tanto Carolina que foi capaz de tirá-la de casa para salvar a reputação da cabocla. A pequena e fraca esperança que Penélope tinha dentro de sí, havia morrido na noite anterior. Deixou algumas lágrimas caírem até que pode fitar a escola ao longe, controlando-se. Agora não era mais a simples Penélope e sim, uma responsável professora.
====...====
O barulho irritante da cortina sendo aberta e a imediata ação da claridade, que feriu os olhos de Maurício mesmo estes estando fechados, acabaram por despertá-lo. Voltando a cabeça contra o travesseiro, praguejou contra todos que gostavam de acordar cedo.
- Mas que inferno! Me deixe dormir! - Gritou, enquanto a criada arrumava o quarto, recolhendo as roupas molhadas e um tanto quanto sujas de barro, sem nada comentar. Acabou por virar-se para a mesma, que não tentava dizer-lhe nada, apenas fazia seu trabalho.
- O que quer, Luzia? Não falei pra me deixar dormir o quanto quisesse?! - Gritou novamente com a criada, que o fitou e deu de ombros.
- Ordens de seu pai, disse que quer que encontre-o na mesa em cinco minutos. - Esta já não ficava mais surpresa ou magoada com os modos do seu "patrãozinho". Estava acostumada com seu gênio explosivo.
- Pra quê? - Murmurou, já mais calmo. Mas não menos irritado.
- Parece que quer apresentá-lo para...- Até a criada riu. - ...a moça que corteja.
Mauricio praguejou, erguendo-se e dando um tapa no traseiro de Luzia, que riu mais alto e saiu do quarto rapidamente. Começou a se trocar, pensando naquela história do pai casando-se novamente. Mais uma caçadora de dotes querendo acabar com sua herança, isso sim. Seu pai já havia falado dela, era a professora local. Uma dessas moças que não arranjam marido e se enfiam em escolas, na esperança de algum velho rico e solitário tirá-las de lá e enchê-las de mimos. Enquanto seguia para a mesa de café da manhã, acabou sorrindo consigo mesmo. Se aquela mocréia achava que iria facilitar o enlace, estaria muito enganada.
- Bom dia, meu filho! - Saudou seu pai, já vestido e pronto. Trajava-se em roupas claras e botas escuras, evidenciando o bom gosto daquele homem do interior. Mauricio sentiu orgulho do pai, apesar de saber bem ao certo o motivo de tanta arrumação. Caiu na cadeira, enfiando um pedaço de pão na boca e murmurando entre as mastigadas.
- Pensei que já tivesse levado os cadernos ontem, pai. O que vai fazer na escola hoje, aprender a decorar as curvas da sua queria professorinha? - Riu. O velho riu também, enfiando as mãos nos bolsos.
- Ela é mulher decente, meu filho. Não se decora as curvas de moça de família. Só depois do casamento, quando eu pretendo saber elas de cor e salteado. - Gargalhou, fazendo a barriga erguer-se e calça cair, tendo que juntá-la com as mãos, algo altomático para o coronel Brás.
- É mesmo um velho safado, sabia? - Disse Mauricio, enquanto dava um último gole no café e escutava outra risada vinda de seu pai. Não se arrumara, não devia isso à aquela aproveitadora. Então seguiram para o carro de seu pai, o único carro da região.
- Sabe filho, não sabe como o casamento é algo bom. Já me casei duas vezes e esta será a terceira, e cada vez acho melhor! E você logo herdará essas terras, quero que tenha a vida de um homem decente. - Maurício sentou-se no lugar do passageiro, enquanto ouvia o discurso. Seu pai parecia pronto para continuar aquela conversa, uma discussão que sempre se repetia sem parar, quando foi surpreendido pelas palavras do filho.
- Se quer saber, ontem conheci uma garota. Numa circunstância bizarra, que não contarei para o senhor! - Riu, fitando o pai que o observava surpreso de soslaio. - É sério, ela não era como essas meninas com quem eu me envolvo, ela é...Sei lá, é diferente pai.
- E qual o nome dela, então? De qual família, diga! - O velho coronel parecia animado com aquilo, pela primeira vez viu o filho interessado não só no corpo de alguém.
- É esse o problema, pai. Não sei o nome dela, nem sei de onde veio. Só não consigo me esquecer dos olhos dela, da voz, do soco que ela me deu... - Quando viu, já havia dito em voz alta o que havia pensado. Seu velho pai não tardou em gargalhar, batendo a mão contra o volante e fazendo o carro balançar.
- Céus! Nunca pensei que ouviria dizer que apanhou de uma mulher! Justo meu filho, que conquista todas as que quer por aí!
- Ei, pare com isso. Nunca mais vou te contar nada, se quer saber! E pare de agir feito um bobalhão, já estamos chegando na escola. - Estava zangado, seu orgulho era seu ponto fraco. Sabia que seu pai jamais esqueceria aquilo, gozaria dele a vida toda.
Saltariam do carro, já sem ver nenhum corre-corre das crianças. A aula já havia começado e Mauricio sentiu o olhar do pai sobre sí, haviam se atrasado graças ao seu demorado desjejum. Subiu a pequena colina onde estava a escola, ouvindo uma voz familiar falando num tom alto algo como funcionava uma conta de somar. Ele e seu pai se aproximaram da escola em silêncio, não desejando atrair a atenção de ninguém. Ao menos seu pai, não naquele momento. Acabaram parando sobre a porta de entrada, fitando a professora que estava de costas, escrevendo no pequeno quadro sobre um cavalete. Era alta, de cabelos castanhos claros, trajando um vestido azul já surrado.
- Bom crianças, como vêem não é difícil fazer a... - A garota voltou-se, surpreendendo-se com a imagem do coronel e do filho na porta. Sorriu, um sorriso que não traduzia nenhuma felicidade sincera. - Ora Coronel, seja bem vindo novamente à nossa escola.
O coronel adentrou à sala, aproveitando sua deixa, inflando-se como um galo de briga e seguindo na direção da professora. Maurício, tão pasmo quanto jamais poderia imaginar no começo daquela manhã, seguiu o pai sem desviar os olhos da professora, que não o fitava. Quando ambos se postaram à frente da moça, o velho coronel fez soar sua voz na escola.
- Professora, este é meu filho, Maurício. - Os olhos da jovem professora se fixaram no mimado herdeiro do coronel, que tomou sua mão e a beijou, inclinando-se de leve. Esta forçou outro sorriso, sempre muito simpática.
- É um prazer, Mauricio. Sou Penélope Santiago. Creio que não deve lembrar de mim.
- Falou num tom casual, desejando que ambos partissem o mais rápido possível.
- Como poderia esquecer, Penélope? - Murmurou Maurício, feito hipnotizado.
Lembrou-se da menininha melancólica, que chorava sempre a partida de sua mãe e que também roubava algumas frutas de sua fazenda. Nunca gostara dela e sabia que aquilo era recíproco. Ao menos na época... Mas, pelo modo que ela o fitava, a situação parecia não ter mudado muito naqueles anos.
Numa ação até mesmo mal educada, fez uma mesura e com passos rápidos da escola, confuso. Odiava o modo como ficava sem ação quando estava próximo daquela professorazinha.
- Diabos! Então...É ela?! - Falou consigo mesmo num tom alto, pouco se importando com aqueles que poderiam ouví-lo. Mal notara que próximo dalí, estava Pedro montado sobre um cavalo, fitando-o ao longe com tanto ódio que seria capaz de sentí-lo dalí, se não estivesse ainda com as idéias tão fixas em outra pessoa.
Então a mulher que tanto o impressionara era a pretendente de seu pai? Se aproximou do carro e sentou-se no lugar do passageiro, enquanto via seu pai caminhando na sua direção, com uma cara de poucos amigos. Acabou por tocar a própria barriga, sentindo uma pontada de dor onde levara o chutão. Involuntáriamente sorriu, aquela era a dor mais prazeirosa que já sentira na vida.