terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Capt 2 - Três Anjos

- Estar preso com uma mulher? Não sei o que poderia ser melhor! - Riu de maneira ruidosa James, arrancando um sorriso discreto dos lábios de Damien.

- E com que mulher, velho.

- Era bela?

- Jamais vi tão bela. Mas, para os demais, não tinha nada de interessante em sua aparência. Poucos conseguiam captar o que havia nela. - Voltou a fitar o céu, parecendo ter seu humor melhorado.

- Continue, Lobo. Quem sabe eu sonhe com essa mulher esta noite. - Provocou James, que recebeu um olhar de troça do companheiro.

- Bem, então estavam Richard e Evangeline naquele quarto. Uma única vela ainda queimava, a luz era precária e o ambiente abafado...

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- O que?! - Richard se pôs em pé da cama, parecendo não saber como agir naquele momento. Se seu pai acordasse e ele não estivesse em casa, o problema seria grande.

- Já disse, desculpe! Não vou ficar me humilhando para sempre. - Evangeline sentou-se na cama, cruzando os braços sobre o peito e desviando o olhar dele.

- Humilhando? Você só me pediu desculpas duas vezes por algo que merecia...Mil desculpas! - Richard caminhava pelo quarto, irritadiço. Evangeline lhe dirigiu o olhar de maneira discreta, como se fitasse um desafeto ou alguém sem capacidade de entender algo óbvio.

- Então não terá nenhum pedido de desculpa. Esqueça o que eu disse à pouco, prefiro manter-me arrogante do que rastejar-me por seu perdão. Aliás... - Evangeline ergueu-se e se aproximou, erguendo a cabeça e o fitando, enquanto erguia sua mão para apontar seu dedo na cara do rapaz. - ...você é que me deve desculpas, senhor. Por estar...Fazendo coisas diabólicas no quarto de minha mãe, uma senhora sempre tão correta.

- Coisas diabólicas?! - Richard tornou a rir da garota, se afastando e seguindo até a cama e se sentando. - Pelo visto foi criada num convento, senhorita...

- Não, fui criada numa casa digna. Que hoje é um bordel, uma casa de jogos e antro dos homens mais desprezíveis do condado. - A garota o fitava de maneira raivosa, cruzando os braços novamente.

- Até eu, senhorita? Sou desprezível...? - Perguntou Richard, que tinha o sorriso morrído em seus lábios e a fitava de maneira calma. Estranhamente, a resposta da jovem lhe interessava de maneira curiosa. Evangeline engoliu seca, se aproximando e se sentando ao lado dele na cama, curvando seus ombros para frente e respirando fundo. Parecia pensar rapidamente no que responder, era evidente que seu raciocínio era rápido e sagaz, e isso fez com que Richard a admirasse. Por fim a jovem suspirou e o fitou, postando-se ereta.

- Deseja sinceridade, senhor?

- Claro. Se quisesse uma mentira, não perguntaria à tí. - Sorriu. A mesma lhe correspondeu o sorriso, um tanto quanto embaraçado, e em seguida respirou fundo, o fitando com seriedade.

- É tão desprezível quanto os demais aqui, sinto lhe dizer. Gasta dinheiro que provávelmente nem seu é com jogatinas, bebedeiras e meretrizes. Além de desprezível é burro, ao meu ver.

- Burro?! - Richard ergueu-se da cama, exaltado. Jamais imaginaria tais palavras vindas dos lábios de uma jovem com aparência tão delicada. Era realmente tolo por imaginar que aquele pequeno furacão lhe diria algo delicado, não que quisesse ouvir algo delicado daquela jovem. Não, não queria mesmo. Se sentou ao chão, próximo da única vela que ainda restava, e a face de Evangeline era uma máscara de luzes fracas, tal qual uma fantasma. Ela manteve-se calada, parecia não desejar estragar ainda mais aquela situação. Foi então que abraçou à sí mesma na cama, tornando a falar.

- Bem... Ao menos agora terá a chance de melhorar. Um tapa de verdade na face de uma ovelha desgarrada, certamente a faz ver o que é direito.

- E você, imagino, é a personificação da perfeição, srta. Dragear. - Respondeu Richard, irônico.

- Não, estou longe disso. Mas tento melhorar à cada dia que se passar, ao contrário do senhor, que a cada dia está mais enfiado na lama, sua dignidade grita por socorro. - Ergueu-se da cama, se aproximando da vela e postando-se ao lado dele. Parecia ter medo de ficar sozinha, mas era evidente que jamais lhe admitiria aquilo. E Richard também não queria deixar as coisas piores.

- É melhor mudarmos de assunto. - Respondeu Richard, que sabia que era culpado daquilo. Pedira pela sinceridade daquela jovem de língua ferina e agora pagava o preço de seu gracejo.

- Se não aguenta uma guerra, não adentre numa batalha. - O fitou de soslaio e recebeu um olhar de troça de volta, o que a fez também domar sua língua. Um silêncio se instalou no quarto, o tempo passava devagar. Richard ergueu-se e seguiu até a janela, tentando abrí-la. Em seguida a esmurrou, e nada aconteceu.

- Não adianta, senhor. Está presa pelo lado de fora. Se ainda fosses um homem forte e vigoroso, quem sabe conseguisse abrí-la. Mas...

- Não consegue ficar um minuto sequer sem falar mal de mim, senhorita?! - Voltou-se Richard, que a encontrou ainda sentada ao chão, rindo dele.

- Desculpe, é que o comparo com os homens que leio em meus livros. Ou seja, o tipo de homem com quem eu iria me casar. E quando faço esta comparação me pergunto por quê a providência não o colocou aqui, ao invés de tí, para me salvar. Não que eu esteja reclamando...

- Imagine se não está. - Novamente, o ego de Richard estava terrívelmente ferido. A jovem parecia ainda se vingar de tê-lo encontrado na cama de sua mãe em cada palavra ou olhar de troça.

-... é que imaginava quando o destino sorrirá para mim. Sabe como é, as mocinhas fortes sempre sofrem muito até encontrar o herói belo, forte e rico. - Richard se aproximaria de Evangeline e, naquele momento, foi a sua vez de rir da mesma. Escorregaria pela parede e se sentaria ao lado dela, tendo um ataque de risadas. Evangeline o fitou de maneira ofendida e cruzou os braços, cerrando os olhos.

- Qual é a graça agora?!

- Parece se valorizar muito, senhorita. Procura um herói belo, forte e rico. Mas por acaso é uma heroína cheia de beleza, dignidade e bons valores? Acredita que alguma mocinha teria uma língua tão ferina e idéias tão pretenciosas como tí, senhorita Dragear?

- Eu... - Engoliu seco e então ergueu-se, seguindo até a cama e se sentando, fitando a parede. - Não sou tão bela e nem tão valorosa, mas qual o problema em saber o que quer e desejar o que quer? Acha que só porque sou mulher e porque nasci em tal condição física e de personalidade, não posso desejar o que meu coração tanto deseja? Me diga, por que eu devo me adaptar? Não nasci para isso, não aceitarei nada menos do que meus sonhos.

Richard fitou alí, caído ao chão e totalmente sem palavras. Fitava as costas delicadas da jovem enquanto ouvia palavras tão fortes e tão cheias de obstinação, que ele sentiu vergonha de sí mesmo. Se aquela alma estivesse em seu corpo, provávelmente, seria um homem diferente. Melhor. Com aquele gosto amargo nos lábios, ergueu-se e se aproximou da jovem, sentando-se ao lado dela. Evangeline tinha os olhos fechados e o rosto virado para Richard, sem encará-lo nem com sua aproximação.

- Senhorita, por favor, olhe para mim. - Evangeline manteve-se impassível, sem fitá-lo. Richard tocou o queixo da jovem e sentiu que a mesma tremeu naquele momento. Ou fora ele que tremia? Talvez ambos estivessem trêmulos naquele momemento, mas o fato era que a jovem voltou-se e o fitou com os olhos marejados. Naquele momento Richard segurou a respiração e soube que algo dele havia se perdido. Algo havia sido ganho também.

- É uma pessoa valorosa e a admiro. Terás tudo que deseja e... Se Deus permitir, eu a ajudarei a realizar todos seus sonhos. - Uma lágrima caiu dos olhos da jovem, que rapidamente a secou, um tanto quanto envergonhada. Baixou a face e fitou as mãos.

- Eu o tratei mal, não sei se mereço isso. Mas, mesmo sabendo que provávelmente não o mereça, aceitarei sua ajuda... Não sou tão tola quanto uma heroína, sou muito mais esperta que elas todas. - Richard riu da jovem, uma risada sem maldade, mas que compartilhava do prazer das idéias um tanto quanto malucas de Evangeline. O clima entre ambos havia mudado

- Se elas fossem espertas, minha cara senhorita, as histórias teriam pouca duração. - Essa foi a vez de Evangeline rir e então a noite se passou rapidamente. Ambos haviam deitado-se sobre a cama, fitando o dossel e partilhado de fofocas locais, planos mirabolantes que nunca aconteceriam, comentários sobre os irmãos de ambos. Risadas haviam soado naquele quarto, gargalhadas inocentes. Logo a manhã surgiria pelas frestas da janela e o canto dos pássaros anunciando que tudo logo acabaria.

Richard estava deitado de lado, fitando a face de Evangeline que por sua vez tinha os olhos fixos no dossel, continuando a falar de algum plano maquiavélico. Naquele momento ele tinha noção que jamais se cansaria daquela visão, daqueles discursos bizarros, dos planos mirabolantes sem fundamento, dos sonhos impossíveis. Jamais se cansaria de Evangeline e aquilo lhe causou dor. Em nada se parecia com o que ela desejava e temia jamais se parecer. Temia estar se apaixonando por alguém que jamais lhe daria um segundo olhar após sua partida daquele quarto. Sempre se considerara um homem cético e naquele momento também voltou-se para o dossel, ordenando que aquela bobagem toda sumisse de sua mente e de seu coração.

- Oh... Pegaram no sono! - Evangeline ergueu-se de supetão, fitando a única criada antiga que ainda restara da casa, que adentrou ao quarto discretamente. Richard fechou os olhos, para proteger a virtude de Evangeline. Esta por sua vez se aproximou da criada e a beijou.


- Bom dia, Germaine! Veja só, deixaram-me trancada com o senhor Winspear. Ele está dormindo desde que me vi com ele aqui, acho que é o alcóol. Bom... Vou dormir também, estou cansada! - Partiu do quarto com uma estranha urgência, como se quisesse escapar dalí rapidamente. A criada riu da jovem e se aproximou de Richard, o chamando pelo sobrenome. Richard, por sua vez, fingiu-se despertar e então sentou-se na cama, espreguiçando-se.

- O que aconteceu aqui, senhora?

- O senhor adormeceu, estava preso com Evangeline.

- Oh, é mesmo. E a senhorita?

- Foi dormir também. Acredito que teve medo de dormir ao lado de um estranho, sabe como são as jovens... - Riu a criada, que o fitava com curiosidade. Richard engoliu seco e ergueu o queixo, curioso.

- Algo de errado, senhora?

- Para dizer a verdade, sim. - Ela tinha as sobrancelhas arqueadas e então um sorriso maltreiro surgiu na face enrugada da mulher. Foi então que apontou para a cama e alí jazia um molho de chaves. Richard se aproximou e as tomou em mão, recusando-se a acreditar naquilo.

- O que isso quer dizer...? - Richard engoliu seco, fitando a criada com ainda mais curiosidade.

- Quer dizer que a senhorita sabia da intenção de seu irmão, que provávelmente a trancaria. Então trouxe consigo o molho de chaves dos aposentos da casa. Ela jamais se deixaria trancar, senhor.