Se aproximou da minúscula janela do cômodo, colocando sua cabeça por entre as grades e respirando um pouco de ar puro. Foi então que abriu os olhos, observando que estavam num casarão envolto por carruagens refinadas e escondido em meio à um matagal. Aparentemente havia um encontro de gente poderosa alí, pessoas sem moral alguma. Alguém com moral jamais se envolveria com Gerard.
Controlando as lágrimas, pode notar que ao longe havia um castelo, envolto pela escuridão. Será que alguém vivia alí? Piscou algumas vezes, enquanto tentava pensar em como fugir daquela prisão em que se encontrava.
- Não adianta, já tentei de tudo. - Murmurou uma voz na escuridão. Piscando algumas vezes, os olhos de Madelyn se acostumaram com a escuridão e esta, então, pode observar a figura. Era uma mulher pequena e magra, de cabelos longos e negros, face arredondada e uma expressão triste.
- Tentou o quê?
- Fugir. Já tentei de todas as maneiras.
- E... Por acaso sabe o que fazem com as jovens que são presas aqui? - Perguntou Madelyn, inconcientemente segurando uma das grades da janela. A estranha deu de ombros, desviando o olhar e fitando uma barata morta ao chão.
-Escravas. Prostitutas. Com sorte seremos isso.
- Existem possibilidades piores. - A jovem se calou, escondendo a face por entre os braços apoiados no joelho.Já Madelyn se sentou ao seu lado, respirando fundo.
- Qual seu nome?
- Elisa. E o seu?
- Madelyn. Sou irmã de Gerard. - Elisa ergueu a face e a fitou nos olhos, como se comparando a situação de ambas e vendo que tudo podia ser bem pior. Madelyn sorriu, sentindo os efeitos das drogas sumirem aos poucos de sí, conseguiria se portar de maneira forte logo.
- Não gostaria de ter um irmão assim, senhorita. - Sorriu de maneira débil e Madelyn riu baixinho, era seu costume rir da própria desgraça. A partir dalí, a noite passou rapidamente. Elisa estava feliz com a nova companhia, parecia gostar de Madelyn e era evidentemente recíproco. Logo o dia surgiu e os barulhos da farra noturna acabaram.
Certamente houvera uma festa indigna, regada à drogas e álcool, sendo feitos acordos de coisas sujas, coisas que Gerard adorava negociar. Madelyn descobriu mais sobre Elisa, sua história era bem previsível. Veio do interior, casou-se com um velho que a praticamente comprou de seus pais. Este foi morto por seus credores e ela foi tomada como pagamento da dívida. Fora vendida para Gerard, que provávelmente a venderia logo. Madelyn não pode deixar de lamentar pelo destino de Elisa. Era uma mulher conformada, que torcia pelo destino menos pior. Mas Madelyn era diferente, lutaria. Lutaria até o fim para sair daquele pesadelo.
Pela manhã, jogaram dois pratos com comida para ambas. Uma comida fria e sem sal, provávelmente restos do que fora servido na noite anterior. Mas ambas estavam com tanta fome que engoliram tudo rapidamente, sem reclamar. Não que aquilo as saceou, mas a agonia incômoda da falta de comida no estômago ao menos parou de as tomar. Assim como a noite, o dia se passou. Mas dessa vez, lentamente. As conversas já não eram tão afoitas, ambas conheciam-se melhor. Duvidas foram findadas aos poucos, curiosidades já não existiam.
Cinco dias se passaram e naquela noite, estava acontecendo outra festa. Os ânimos das prisioneiras haviam baixado muito, agora comentavam de seus sonhos e desejos que jamais aconteceriam. Trocavam suspiros e algumas lágrimas, da parte de Elisa, não tardavam em surgir. Madelyn se aproximou da janela, fitando o castelo como sempre o fazia durante a noite. Cruzou os braços e sorriu, chamando a atenção de sua companheira.
- Posso saber o motivo do sorriso?
- Estou admirando o castelo. Queria saber que príncipe vive lá.
- Príncipe?! Por Deus...- Elisa fez um sinal da cruz, fechando os olhos. - Não sabia que alí vive um demônio?
- Demônio?! Você está louca. - Riu Madelyn, parecendo ainda mais interessada no castelo. - Queria viver alí, parece tão encantador...
- Dizem que existe um homem dominado por sete demônios. Prefiro ser escrava do que viver lá.
- Elisa! Quanto exageiro, é apenas uma história estúpida de gente que não tem o que fazer da vida. - Deu de ombros, mas sentiu um calafrio percorrer sua espinha. - Eu acho que...
A porta se abriria naquele momento, e Gerard e mais três homens adentrariam. Madelyn fitou-o cheia de ódio, mantendo-se calada e parada onde estava. Um dos homens se aproximou de Elisa e tocou em sua face. Era jovem e de aparência calma, até mesmo atraente. Madelyn pode flagrar um certo ânimo de Elisa, como se esta estivesse mostrando o quão boa era para o homem, queria que este a levasse. Queria ser sua escrava. Aquele pensamento chocou Madelyn, que deixou os braços caírem ao lado do corpo e arregalou os olhos de leve. O conformismo de Elisa a chocou e seus modos vulgares ainda mais.
- Levarei esta. - O desconhecido a puxou pelo braço, trazendo-a contra sí. Ela, por sua vez fitou Madelyn, deixando clara sua vergonha perante a coragem e demonstração de moral da amiga. Madelyn pode notar naquele momento, que as pessoas realmente não eram iguais. Algumas lutavam até o fim, outras aceitavam a dor e tentavam conviver com esta da maneira mais suportável possível.
Elisa e o homem saíram dalí, sendo seguidos por mais um homem. Gerard, enquanto ela estivera distraída, se aproximara da irmã e sorria para a mesma. Ela fixou seus olhos nele, deixando o mais claro possível o quanto o desprezava.
- Senhor Lincon, esta é a minha irmã. Vê? Uma bela garota, muito saudável.
- Não me parece refinada o bastante, lamento. - O homem fez um sinal negativo com a cabeça, balançando sua cabeça branca. Era magro e velho, usava roupas grandes demais para sí. Mas parecia ser muito rico.
- Como assim, senhor? - Retrucou Gerard, alarmado. Em contrapartida, Madelyn estava exultante.
- Ela seria dada a um homem intragável, porém exigente. É rico, não gostaria de deitar-se com uma cortezã camponesa, sinto muito. - Dessa vez, Madelyn ficou ofendida. Suas narinas se inflaram e ela se aproximou do velho, sorrindo.
- É seu inimigo?
- Não, por quê?
- Eu sou uma mulher doente...Sabe como é, poderia findar com a vida dele. - Se aproximaria do velho de maneira insinuante, que por sua vez saiu rapidamente dalí, alarmado com a proximidade eminente da jovem com uma provável doença. Madelyn começou a rir e então Gerard a empurrou contra a parede, segurando-a pelo pescoço e a fitando com raiva.
- Doente?! Você é louca! Se porta como uma mulher qualquer, merece a vida que lhe darei! - Lhe deu um soco, e tão fraca como estava, Madelyn caiu ao chão. Ergueu seus olhos e fitou o irmão, sem saber o que dizer ou como se portar naquela situação. Ele, por sua vez, se aproximou e se ajoelhou ao seu lado.
- Minha querida, eu a libertaria por um preço. Sabes bem qual é, não? Eu jamais saíria perdendo, jamais a deixaria partir sem ganhar nada em troca. - Sorriu, tocando-a na face.
- Jamais dormiria contigo, prefiro morrer! - Gritou Madelyn, se afastando do irmão, praticamente rastejando sobre o chão frio da cela.
- Morrer é pouco para tí, vagabunda. Terás o que merece por tripudiar tanto de meu desejo e de meus sentimentos!
- Sentimentos?! Você não tem sentimentos, Gerard! - Gritou Madelyn, enquanto observava este partir dalí rapidamente. Foi então que o homem parou, voltando-se e a fitando de uma maneira estranha. Doentia. Madelyn, pela primeira vez em toda sua vida, realmente temeu seu irmão.
- Tenho mais sentimentos do que imagina, Madelyn. Um dia verás. - Saiu dalí, deixando suas palavras ecoarem pela cela vazia. Três dias se passaram, e ela se sentia tão só que seu coração parecia doer. Mas, nada é tão ruim que não possa piorar.
Seu irmão já não a oferecia para ninguém. Já não desejava vendê-la e isso era visível. Ouvia mulheres entrarem e saírem de outras celas, mas ela não recebia nenhuma oferta. Era visível que ele desejava tê-la para sí, e somente para sí. Depois de uma semana, a comida foi ficando mais escassa, assim como a água. Estava fraca e frágil e então Gerard começou a visitá-la.
- E então? Serás minha?
- Nunca... - Respondeu com dificuldade, mas sem hesitar. Estava muito fraca, seu corpo estava magro e sujo, seus lábios ressequidos.
- Não a tomarei à força. Quero que seja minha porque deseja isso. - Sorriu o irmão, que tomava um cálice com vinho e aparentemente deleitava-se com a situação de Madelyn.
Mais alguns dias se passaram e Madelyn pode notar que a paciência de Gerard estava se esgotando. Foi então que escutou sua voz comentar com seu amigo, naquela mesma noite, que depois da festa iria começar a torturá-la. Estava surpreso com sua força e já não aguentava esperar. Madelyn se encheu de pânico e ergueu-se, se aproximando da janela e fitando o castelo. Lembrou das palavras de Elisa e fechou os olhos, desejando estar alí naquele momento. Foi então que ouviu a aproximação de seu irmão e então resolveu tentar a sorte.
- Mas que surpresa, em pé!
- Sim, Gerard. Estou disposta a aceitá-lo. - O fitou com resignação e este a respondeu com um sorriso satisfeito. Se aproximou da irmã e a abraçou de maneira carinhosa, afagando seu cabelo sujo.
- Não sabe como esperei por isso, Madelyn. Venha, será limpa e alimentada. - A trouxe pela mão, como se fosse um namorado com sua amante. Aquilo a encheu de nojo e, o pior, não sabia como definir aquela situação. Gerard era um maníaco e aparentemente, tinha em Madelyn sua fixação.
Foi alimentada, comeu bem como não o fazia em semanas. Aparentemente os negócios do irmão iam bem, já que a fartura era visível. Criados a olhavam com curiosidade, evidentemente comentavam sobre a heresia que iria acontecer em poucas horas. Gerard a fitava ao longe, com evidente satisfação no rosto magro, como se antecipando o deleite de tê-la em seus braços. Madelyn, naquele momento, empurrou o prato. Sentiu-se enojada.
- Pensei que fosse comer muito mais, Maddy. - Falou Gerard. Aquele apelido, soando em seus lábios, a irritou profundamente. Por fim forçou um sorriso, levantando-se com certa dificuldade.
- Estou satisfeita. Desejo apenas um banho agora.
E assim foi feito. Tomou banho em águas perfumadas, num luxo que jamais encontrou. Nem na época de bonança de seu pai. Encontrou uma bela camisola branca, virginal, um tanto quando transparente e envolta de véus, certamente para fazê-la lembrar alguma criatura mitológica. Gerard sempre a comparara com uma ninfa. Sentiu um tremor tomar seu corpo e fitou-se no espelho com grande tristeza. Seria este seu destino? Ser amante de seu irmão?! Fechou os olhos e lembrou das palavras de seu pai. A vida devia à ele sua felicidade. Tomou um susto ao ouvir o barulho da porta abrindo e fitou pelo espelho a figura de seu irmão. Este parou e a observou com evidente desejo e ela sentiu-se enojada novamente.
Gerard se aproximou novamente, como uma serpente envolvendo sua presa, e encostou seu corpo no de Madelyn. Esta, por sua vez, fechou os olhos e sentiu um tremor tomar seu corpo. Ele riu.
- Sabia que lhe despertava sensações também, Madelyn...
Só de imaginar que este pudesse achar que ela estava atraída ou feliz com aquela situação, Madelyn se encheu de raiva. Fitou a penteadeira e viu alí um vidro de perfume. Tão rápida quanto seu pensamento, o tomou em mãos e atingiu a cabeça de Gerard. Seu irmão gritou, levando a mão á cabeça e tingindo seus dedos com o sangue que caía dalí. Alarmada, Madelyn chutou a cabeça do irmão novamente e saiu correndo, sem saber para onde seguir naquele momento. Não conhecia aquele casarão, não sabia para onde ir.
Foi então que entrou numa saleta íntima, aparentemente uma sala secreta. Escondeu-se atrás de uma escrivaninha e manteve-se alí, acalmando os batimentos de seu coração. O que menos esperava era que naquele exato momento, fosse ter compania. Dois homens adentraram e começaram a conversar de maneira exaltada, aos sussurros.
- Se você me delatar, Antoine, verás! Ninguém pode saber que planejo a morte dele.
- O que pode fazer, Thomas?
- Tenho alguns homens que sabem de sua história. Sabem que deixou o pobre Alexander tomar a culpa do incêndio no Galpão de Santa Marta. Ele e Richard Winpear.
- E daí? Alexander é rico, pode se defender. E Richard Winspear era um tolo, mereceu a morte.
Madelyn lembrou da história, que acontecera anos atrás. Um atentado contra alguns homens amotinados, não conseguia recordar direito. Soube que alguns homens foram feridos no atentado, alguns morreram. O tal Richard Winspear fora tomado como o principal culpado pelo acontecido. Sentiu um temor tomar seu corpo, então ele fora apenas um pobre coitado no meio daquelas pessoas sujas?! Ele e o tal Alexander, pelo visto.
Perdida em meio à pensamentos, mal notou que sua presença havia sido descoberta. Dois pares de olhos a fitavam por baixo da escrivaninha e o tal Thomas a puxou com força para cima, a fitando com uma expressão de raiva e surpresa.
- Temos uma espiã aqui.