terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Capt 10 - A Torre (FINAL)

Gerard estava morto e Thomas não tardou à falecer, seu corpo não aguentaria a pressão da força dos socos de Alexander por muito tempo. O irmão de Madelyn seria enterrado próximo ao castelo, com a presença de religiosos e seus poucos amigos. Madelyn o perdoara. A mágoa ainda existia em seu peito, não era hipócrita ao ponto de achar que a morte do mesmo apagaria tudo que ele a fizera passar. Mas ele havia a amado, no fim das contas e ela sabia o que era possível de se fazer por amor. Compreendeu Gerard, faria tudo por Alexander. Talvez, confessou intimanente, seria capaz de forçar a sua presença na vida de Alexander mesmo casada com Ralph. Seria adultera, conviveria com o pecado... Mas era tão passional quanto o irmão fora.
Havia completado um mês da morte do irmão e Madelyn trajava-se de negro, em frente ao seu túmulo, tirando todas aquelas conclusões enquanto deixava escapar algumas flores por entre as mãos. Esperava que ele estivesse em paz naquele momento, por mais que houvesse errado tanto em sua vida.

- O conhecia? - Uma voz soou ao seu lado e ela voltou-se de prontidão para um homem que surgiria ao seu lado de maneira sorrateira. Era alto e magro, de um rosto belo mas triste. Cabelos castanhos e lisos que acariciavam sua testa e vestimentas gastas, com um longo sobretudo negro e botas de couro, lembrava um tipo de pirata daqueles que andavam pelo porto, aqueles que Gerard lidara tantas vezes. Talvez fosse um sócio e estava alí desejando cobrar algo. Madelyn o fitou com uma expressão de poucos amigos.

- Sim, era meu irmão. - Respondeu de maneira seca.

- Sinto muito. - O homem desviou o olhar, fitando o túmulo com uma expressão seca. Algum tempo se passou e ambos se mantiveram num silêncio, um tanto quanto desconfortável para ela. Suspirando, deixou o lugar rapidamente e seguiu na direção do castelo.


Adentraria ao castelo e encontraria a senhora Lilly andando por alí de maneira sorridente, tudo estava sendo reformado para o casamento. Convites e mais convites estavam sendo enviados para os amigos e famílias dos mesmos de Alexander, os poucos que ele mantivera contato. Madelyn, por sua vez, acabara por chamar apenas Tereza, que seria sua madrinha.

Tereza após o casamento que viera a não acontecer, fora espancada por Jonathan. Sua sorte foi a rápida ação de Alexander, que mandou alguns homens começarem as buscas pela mulher. Ela havia sumido, sabia demais e era vísivel que os irmãos Dragear não a deixariam viver. Nem a ela e nem a Madelyn. Acabara por ser encontrada presa no porão da casa de Jonathan, sem comida e ferida. Mas ao ver que seria tirada de lá, um sorriso feliz a tomou apesar da dor. Naquelas semanas se recuperou bem, tranqüila pela segurança que aquele castelo lhe proporcionava.

Madelyn não temeu o encontro de Tereza com Alexander, como a maioria das mulheres o fariam em seu lugar. E Alexander tratou a mulher com carinho, um carinho distante mas vísivelmente existente. A deixou em um belo aposento e lhe contratou uma enfermeira. Madelyn a visitava diáriamente, era sua melhor amiga e sabia que pela coragem daquela mulher, pode salvar o homem da sua vida e salvar-se também. Agora sabia que não sobreviveria ao casamento com Ralph, se tornaria a sombra da mulher que era e provávelmente fugiria, sem pudores ou arrependimentos. Sem pensar duas vezes. Conhecia-se tão bem, sabia prever suas próprias atitudes.

- Você não é do tipo introspectivo pensador, Madelyn. - A voz de Alexander soou, a despertando de seus devaneios e ela o fitou, sorrindo.

- Não. Sou do tipo que falo até com as paredes. - Riu, enquanto o observava fazer um sinal positivo com a cabeça e se aproximar, a abraçando.

- Confesso que jamais imaginaria que viesse a amar uma mulher como tí. Tão cheia de vida e distante das maneiras e portes que a sociedade exig...

- Está reclamando? - Interrompeu Madelyn, fingindo-se magoada.

- Não, estou constantando. Constatando que eu era um tolo, não sabia ver a flor no meio do pântano. - Se afastou, deslisado o dedo sobre a face da amada. - Não sabia ver o que era uma mulher de verdade.

- O que quer, hein? Está me elogiando tanto...- Gracejou Madelyn, cruzando os braços.

- Está estranhando?

- Claro! Estranhando o homem que está sempre taciturno, avesso aos carinhos e palavras romanticas, se derretendo aqui por uma mulher.

- Por uma mulher, não! Pela mulher da minha vida. Aquela que conhece meu verdadeiro ser...- A fitaria nos olhos e Madelyn se sentiria emocionada, sabia que aquilo era verdade. Tentando fugir daquela situação tão tocante, ela forçou um sorriso.

- Prometo que não contarei à ninguém, para que não suje sua imagem de homem cruel do castelo.

- Pode contar, minha querida. Acha que depois dessa festa eu terei alguma imagem do tipo? Um homem apaixonado como eu, jamais poderá manter uma imagem de homem cruel...- Madelyn tomou a mão dele nas suas e a beijou, em seguida o abraçando e sorrindo.

- Você nunca foi cruel, é a pessoa mais doce que conheço. E é por isso que o amo. - Alexander se aproximaria, erguendo a máscara e a beijando delicadamente, enquanto acariciava seu pescoço com toques lentos e decididos, como se soubesse mesmo o que queria e demonstrasse aquilo com aquela simplória e poderosa carícia.

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O salão estava cheio, as pessoas já esperavam pelo casamento de maneira animada. O clima de felicidade era geral, haviam alí apenas pessoas que realmente desejavam o bem de Alexander e Madelyn. O homem fitava-se no espelho, enquanto arrumava a vestimenta de gala que não usava à tanto tempo. Enquanto apertava o nó da gravata, lembrou-se de Evangeline. Ela o ensinara à fazer aquilo. Ela sonhara em vê-lo se casar, queria estar ao seu lado. Sentiu a garganta seca enquanto lembrava a imagem doce da irmã.

Madelyn lhe contara sobre o que acontecera. A culpa da morte já não havia em suas costas, mas isso não lhe diminuia a dor. Como Jonathan e Ralph foram capazes de matarem sua irmã? Não havia criatura tão doce e prestativa como Evangeline. Ergueu os olhos e fitou o espelho, vendo neles a irmã. Ela certamente estaria consigo naquele momento e com aquele pensamento, ele tentou afastar qualquer tristeza.

- Pensando nela, não é mesmo? - Alexander se assustou com a voz e fitou a imagem do desconhecido pelo espelho, aos poucos reconhecendo a face do homem. Virou-se e se aproximou com passos largos, ainda não querendo acreditar no que sua mente lhe dizia.

- Nela quem? - Disse de maneira suave e ao mesmo tempo nervosa com a invasão. O homem se aproximou da janela e viu todas aquelas pessoas e suspirou, enfiando as mãos por dentro dos bolsos de seu sobretudo.

- Evangeline, sua irmã.

- Richard? É você?! - Alexander se apoiou na parede, parecendo não poder acreditar no que seus olhos viam. O homem voltou-se de leve para trás, somente para fitá-lo e lhe enviar um sorriso rápido.

- Quem mais poderia ser? Quem mais amou Evangeline como você? - Implícitas naquelas palavras tão calmas, havia uma fúria e uma raiva. Alexander sabia o que Richard sentia. Sentiu o mesmo quando viu Madelyn o deixar com Ralph naquela manhã. Sabia como era horrível saber que jamais viveria tamanho amor em sua vida.

- Fico feliz em vê-lo bem. - Alexander se aproximaria para comprimentá-lo com alegria, mas pararia ao ver o modo frio com que o mesmo se voltara para a janela e fitava aquelas pessoas. Estava tão feliz com seu casamento que acreditava que todos vivessem a mesma felicidade e isso não acontecia com Richard.

- Eu também, Dragear. Casando-se com uma boa mulher, voltando à tomar seus negócios. Encontrando a felicidade de frente... Sabe, merece a felicidade que tem. Sofreu muito. - Fixou seus olhos em Vivian Winspear, ao lado de seu marido, que pareciam conversar animadamente com John e Erin Spencer.

- Deverias também ser feliz, Richard. Veja meu caso, eu encontrei Madelyn e... - Richard se voltaria, deixando os braços caírem ao lado do corpo e sorrindo de maneira triste, fazendo um sinal negativo com a cabeça.

- Não, jamais haverá outra. Você sabe bem disso, Alexander. - E realmente sabia daquilo. A obsessão de Richard era tão grande quanto a de Gerard Therton, mas era numa versão "boa". Não conhecia corretamente a história, mas sabia que ele tentara mudar por sua irmã, mas fora tarde demais. Quando deu conta de seus sentimentos, houve o desastre que separou os três inocentes da vida que tão bem conheciam.

- Só desejo uma coisa agora, amigo. - Continuou Richard Winspear, que se afastara novamente e se aproximava da porta, como se fosse um fantasma que se dissipava pelas sombras rapidamente. - Vingança. Não fará nada com teus irmãos, nem com Antoine. Thomas já está no inferno, mas estes... Estes pagarão. Pagarão por mim, por você, pelos homens que morreram em Santa Marta e principalmente por Evangeline.

- Richard eu...

- É a única coisa que estou pedindo. Já tens tua felicidade, deixe-me ter a minha. - Saiu dalí rapidamente, batendo a porta e sumindo tão discretamente quanto surgira. Alexander caiu em uma cadeira, recuperando o fôlego.

- Não serás feliz assim. - Murmurou Alexander, que fitava a porta por onde Richard saíra dalí. Quando preparava-se para postar-se em pé, Tereza adentrou no quarto de supetão, sorrindo. Estava mais bela do que nunca num vestido verde, quase reestabelecida.

- Alexander, está atrasado! Madelyn já está arrancando os cabelos! - Comentou entre sorrisos, enganchando em seu braço e o fitando com carinho. Começaram a caminhar na saída do quarto, enquanto percorriam os corredores em silêncio. Foi então que a mesma o quebrou.

- Sabe, deveria ser eu alí, casando contigo. - Fitou-o nos olhos, aparentemente emocionada.

- Tereza... - Foi a única coisa que Alexander conseguiu dizer, sem saber como agir. Não queria partir o coração daquela mulher que sabia bem o gosto do sofrimento, tão bem quanto ele. Ela, por sua vez, sorriu e forçou uma expressão feliz, domando as lágrimas.

- Mas estou feliz, estou vendo o homem que tanto amo casando-se com a melhor mulher que conheço. O destino foi sábio, no fim das contas. - Comentava ao desder as escadarias, todos fitavam com curiosidade o mascarado e sua ex-noiva surgirem alí. Atravessaram as pessoas, comprimentando com sorriso os demais e então foram para o jardim, onde um paroco os esperava ao fim de um tapete vermelho por sobre a grama verde e coberto de pétalas de rosas. As mesmas que Madelyn seguiu até a torre, na noite que escolheu Alexander para partilhar sua vida.

Ao chegar em frente ao tapete, fitou Tereza e lhe tomou as mão entre as suas, sorrindo. A mesma parecia sem jeito, ainda não estava completamente à vontade com Alexander, parecia nunca perdoar-se por tudo que havia feito com aquele homem tão bom.

- Serás feliz, Tereza. Sei disso.

- Eu estou completamente motivada à isso, Alexander. Quero muito ser feliz. - Apertou-lhe as mãos e então o abraçou, sorrindo e novamente controlando as lágrimas que nublavam seus olhos. Então o empurrou na direção do tapete, fazendo os demais rirem. Sorrindo por trás da máscara, Alexander deus seus últimos passos como homem solteiro e estranhamente não se sentiu triste com aquilo, como os demais se sentiriam. Seu coração bateu mais rápido quando ouviu o soar de um violino solitário, o seu violino, na mão de um jovem que seguia pelo tapete. Em seguida surgiu Tereza, que se postou ao lado de Alexander e então surgiu Madelyn por entre todos.

Trajava-se com um vestido branco e simples, com algumas pregas e bordados róseos, com um véu que lhe tocava a face e a fazia parecer um anjo. Era seu anjo e sempre seria, pensou Alexander emocionado. Ela adentrou lentamente, sorrindo e o fitando nos olhos. Eram ambos sozinhos no meio da multidão. Quando ficaram frente à frente e Alexander pode erguer o véu, encontrou o sorriso que tanto enchia seu coração de ternura. Os votos foram ditos com urgência, como se ambos temessem que algo poderia interferir novamente na tão lutada felicidade deles.

Quando, por fim, deram o beijo puderam acalmar seus corações. Alexander se distanciou e sorriu para Madelyn, que chorava sem ter vergonha, sem se importar com o que os outros pensariam. Esta era Madelyn, a mulher de sua vida. Finalmente se sentiu em casa. Com Madelyn, sempre seria seu lugar.